na verdade, era madrugada ainda na mariposa dos lábios
e o mundo virginal do verbo
não tinha irrompido a renda púrpura dos teus pulsos
quando te falei de um músculo
retalhado e oculto
a peito aberto
sob um colar de conchas libertas na luz nocturna
de um terço madrepérola de sangue e e lágrimas
e dos pomares profícuos do meu corpo de pedra e chumbo
onde, os frutos biológicos e sadios,
mercê da inquietude dúbia do vento à copa das árvores
se convertiam
de polpa
em húmus
na verdade, ainda, na noite crua das vagas,
solitária é a lua
e quão suspeita e súbita é, à face da terra, a tempestade dos olhos...
ou dos sentidos, bem sabes...
Inédito
num corpo de papel
sobram-me
as mãos e os gestos
de te_ser o risco
macramé
- geométrica forma. os dedos o ponto e o nó -
a boca e as palavras
(profusas)
de dizer
a cegueira a fome
de teus lábios
subjaz a carne marcada
orgástica e vitalícia
o punção de teu nome
tesoura
recorte
embriaguez de sonho
sonhar-te
o fogo. ai o fogo, maior que água
que [me] consome
bebendo
ao redor
a última gota
da distância que me isenta
(fosso do meu castelo)
e me confirma, sulista moura,
e sou-te, irremediavelmente,
península sitiada,
mapa
lanterna acesa sob o manto das tuas armas
guia
gruta marítima
furna
subaquática
improvável local
aquém e além dos mapas consentâneos
onde te espero
alada
e onde os deuses
reunidos em concílio
rodam, tribais, à nossa volta, e outorgam
no archote clarividente de um sol-papiro
que, se não ocaso, então
será em nós
- na flor evangélica e carnívora da nossa boca -
o equinócio
o instante preciso em que o sol
em aparente órbita
cruza, cerzindo,
a própria esfera celeste ...
num corpo de papel fica ditosa a marca d'água
a escrita hieroglífica e cuneiforme
o rubor do sangue que nos ilumina por dentro
o amor sem mácula
e o devir
(nascente, boreal)
do tempo preservado nas pedras.
Poema inédito
Imagem da net
surges-me, tecitura timidamente nua
no tempo dos seixos,
a inflectir-se a sul das formas pantanosas
e dos sentidos (ocultos) no âmago da chama,
lanterna de Aladino,
onde o ocidente tomba e se demora ao vapor das horas
revelas-te,
gentílica forma, paladino andante, senhor de um reino,
de madressilvas, de pérolas e de rosas
sufocadas
- a minha pele, que é tua, teu habitáculo permanente
cada poro, cada condado, cada alvéolo, sendo
vaso comunicante
em inclinação de sol
rarefeito
na flor do cardo, na fogueira primeva e restolhada da planície
digo-te, adolescendo,
da falibilidade dos deuses no Olimpo,
de um caudal, de um nó de sete milhas de bruma e vida,
a unir-me, musgo, à pedra basáltica da tua alma
autêntica filigrana da palavra
em luz que cega
naufraga
sobre todas as coisas, inominável, soletro-te,
íntima, morosa, como me sabes. por vezes, rápido,
(confesso)
em pulsação do ventre
na vastidão da terra enrubescida
na pele dos pulsos
na raiz dos olhos e rente aos lábios
... retorno lentamente
digo-te então, gentílica forma, de como se fazem brandos os lírios bravos
dos campos em pousio,
à causa justa das nascentes.
de quantas vidas me faltam, rio, antes que sejas voz no térreo damasco das minhas margens?
Inédito
trago-te comigo
desde a largueza dos tempos
e da liberdade das brisas
onde os lábios das crianças
e os olhos
das ceifeiras
eram cristais certos a fluir além de vésperes1 e ocasos
e os homens
de boa vontade
não sabiam 'inda da força do acelerador de partículas
trago-te, na humildade desnuda das coisas simples,
no canto dos pássaros
no romance dos astros
na lua cheia da minha cara de bolacha maria
no rastro dos bichos no vedo das moitas
(cada ruga que nasce enquanto durmo)
na juntura dos ossos
quebradiços
na marcha lenta dos pinguins, das tartarugas,
no vermelho oculto
na filigrana
e no tule, do meu vestido, imaginário, de princesa
no baile e na trança do meu cabelo
(a tua dádiva)
e, bem sabes, bem sabes,
porque não desisto, jamais e nunca,
na polpa carnuda dos dedos
com que desenho, determinada, na areia da praia fria
a esperança vindoura nos dias que ‘inda não vernaram.
trago-te em mim, porque não sei, não me permito, nem quero, nem ouso,
Aleluia: significa "Louvem! Adorem!" ou "Elogio (em)"- (sejam positivos).
____
EXCELENTE ANO NOVO, meus amigos. Aleluia!
Bem-hajam pela companhia, pela vossa presença...
Fumegante
no jardim íntimo dos meus olhos
o Dezembro a neblina
em que cultivo o inaudito
o indizível
e a distância
inefável, extraordinária,
o sal-gema
de que um dia se fez em mim, o mar grande e outras águas,
a forma gerundiva das estrelas pontífices, magas,
o símbolo de David
e esta falta a que chamo sem saber que nome lhe deva
ou possa dar
de inexistência
e mágoa
plena
a macerar-se poalha em brilho e canto
na fala, talhe, esquiço livre, dos nossos lábios
e o Natal
ai o Natal dos passarinhos sem berço
aqui tão perto
a formigar[nos] o macio das asas
o tempo efémero dos presépios
o azevinho, as bagas,
o vermelho dulcíssimo das labaredas
o gemido das pétalas
silenciosas
o ópio, a papoila pianíssima dos poemas...
e, no hino, hossana ária, liturgia de t’amar
.
.
.
Acredito, oh sim, acredito, e não duvido,
de que renas virão
no dia do juízo final abraçar-me
fundida a ti
na torrente húmida dos cabelos dos astros
no sortilégio dos pântanos
no encantamento das cidades
compartidas
- a lei gravítica e reaccional
que, indubitavelmente,
nos repele e nos aproxima
como bandeiras de paz justapostas às hastes terríficas dos guindastes
no Livro das Horas,
em tudo o mais, sei minhas
tão-só, e apenas,
as paredes da casa grande
a revelarem-se laudes musguentas
vésperas nas frinchas da iniquidade
e o musgo manso das coisas ímpares
em que te deito, Senhor do meu Presépio,
Luz basilar que me ilumina a estrada
ad eternum,
tua, e virgem de ti, qual Fénix renascida,
apóstrofe
sílaba áfona
informe e cálida
sob
uma palidez de pano níveo e cru …
Inédito, Dezembro 2011
____________________
falo-te
[de ternura, bem sabes] da delicadeza branda do bico de lápis
caran d'ache
contido em ti
a dupla forma de um trapézio
de um invólucro - prisma hexagonal
e desta feição, brumosa e minha
de te dizer
["Se eu pudesse viver minha vida novamente..."1]
sendo[te] espiral de flor de tília justaposta
à brandura grafitada de um cedro,
falo-te
do risco
aguarelável dos teus lábios
depostos, entreabertos, ávidos, na espessura tenra do poema
e da fragilidade da folha que o aguarda, virgem e branca
falo-te, reclinada nas marés em que amanheço,
da solubilidade dos meus olhos
esmeraldas - topázios
cinzas, azuis , verdes e
transparentes águas-marinhas
da existência salobra dos dias imperfeitos
da força das sentenças de resolução inabalável, qual charruas
a rasgar[me] silêncios das pedras lunares
e do cheiro
do bálsamo tangível dos círios ornados de giestas
material de que me socorro
quando me agravo, contida no [teu] tempo, e me impeço de ser
sonambulismo in vítreo no sono vazio dos dias virados do avesso
digo-te
[por vezes] da cadeira de baloiço em que me sento,
do voo indizível dos moinhos de vento
de D. Quixote, da fidalguia, de Dulcineia, conto-me estórias de mouras,
de reis, de rainhas, de princesas, de duendes e fadas,
da viagem pálida dos desertos e da força centrípeta das asas
rectilíneas, de reinos perdidos
por entre o nevoeiro consistente na ilha
e desta brisa, sensação constante de boreal aragem,
balsa salva-vidas
suspensa do prodígio-ventre de a.mar
visão melancólica em busca permanente
do sublime e subliminarmente absoluto
digo-te [talvez me oiças...] de como respiram de vida e graça
as espinhas as anémonas e os cardos da costa
de como se tomam de ti as minhas tardes
quando, descalça, trilho as rotas dos povos nómadas e mareantes
e dos meus seios - da sensibilidade dos vidros
e dos meus braços - tábuas de teu salvamento
e deste Inverno de nenúfar e musselina
a evidência de um frio polar capaz de florear arestas próprias
falo-te
da existência coralina
para que celebremos a diversidade branda e o apogeu bruxuleante da cor mais pálida.
falo-te de amor enquanto abro o peito do meu vestido de verbo
[e de amor maior te falo]
antes que, no sopro truculento das furnas, na maré vaza, o mar nos devolva,
na espuma dos dias inabitados, o que, dos dias de luz, nos falta...
(1) Rubem Alves
Peniche, 10 Dez. 2011 (Poema Inédito)
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este é o silêncio
das linhas d'água pousadas a exceder dos dedos
em hematose pulmonar
a pele retida em câmbio
saliva
gasosa orgânica
d'alvéolos
assemelhados à forma macia do córtex
cerebral
surpreendidos
[são-nos] os fios lácteos
nuvens, cúmulos-nimbos1,
cabelos núncios, trança em zig-zag
este é o silêncio
dos teus dedos
o fecho escoado no vestido do tempo áfono
a traqueia, os pulmões
ávidos
de respirar[te]
e o ritmo
impróprio do relógio do hall
a balaústra, a vigia, os vidros baços - olhos inaudíveis a submerger o rio
a casa que não dorme
o ganso a chapinhar no gelo o lago do quintal
o cubículo em que guardo o milho, a alpista, e a taça
de cicuta
de beber[te]
granizo chuva água pedra
dissoluta na calçada
assusto-me
quero deitar-me nua e já, depressa e demorada
na pressa vagarosa
de uma vida [nossa] antes que seja tarde
quero esgueirar-me dos [meus] olhos
da frialdade do lençol
do vento
gélido, imparável, a tossicar
contra a palidez invernosa do porto
donde m'acenas de peito aberto,
e desta noite
ai, desta noite, lisa entre-as-margens
...
coloco
as pestanas postiças no bolso do casaco
as penas, as plumas, os artefactos despidos
a nudez telúrica do ventre
e sou-te
como o Tejo
corcovada, resiliente, aos pés da cidade
- chama a flamejar[te]
qual rebento de árvore vivaz à morrinha estremecida p'la cadência do verbo
e sou-te [bem sabes, bem sabes]
este olhar sombrio de fogo e musgo
a porção ventral do tórax
macio e aberto
e os meus seios
colunas d’anjos reclinados
o [teu] canto
a sexta sinfonia de Beethoven
e o portal do paraíso eterno de que te dei a chave.
falaremos de pássaros.
da maré vaza e das [nossas] histórias buriladas no silêncio dos lábios.
Inédito
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(1)“cúmulo-nimbo”
S. m. Met.
1. Nuvem núncia de trovoadas, de aspecto fibroso (por causa da presença de cristais de gelo), constituída de um ou vários elementos que lembram grandes torreões cujas bases se emendam umas às outras, e que pode estender-se verticalmente de 1 000 a 6 000m acima do solo.
[Sin.: nimbo-cúmulo. Pl.: cúmulos-nimbos.]
"núncia"
[Do lat. nuntia.]
S. f.
1. Anunciadora, mensageira; precursora"
sucintamente os lábios
habitação perene de dizer palavras
sucintamente os ombros
os abraços
a não conseguir adormecer a noite
o corpo castigado pelo verdasco
transfinito
- o jornal aberto que não leio
o cheiro a ranço que imagino tenha o meu corpo depois de morto -
sorrio. olho-me em espelho
os silêncios escorregadios como sapatos velhos,de solas safas,
ressoantes nos leitos dos nevoeiros - os lençóis alvos e máculos de ti
sucintamente te digo
da bétula encurvada no frontispício da casa
do puxador da porta que não roda
do embrulho do xaile garrido em que encolho
os meus olhos de jade
a face lívida
- da fome colorida das framboesas -
das tuas mãos entrelaçadas
com a força necessária das bagas sob as silvas
dos gestos de te dizer
desejo
amor, amado, na irracionalidade da razão cerzida em bastidor
...
que te dizer ainda que não saibas? - porque sequer é domingo
e tu não chegas,
talvez
das pragas das formigas
que não domino
desta mania de emparelhar as pedras
de ler palavras in.vertidas
falar-te
da humidade dos olhos
do pescoço comprido a esticar-se além dos dias dias infindáveis
das paredes caniçadas
da teimosia
das sombras que o inverno traz às nossas vidas
afinal
dos bolsos vazios
onde encolho as mãos dos dias frios
dissimular
fingir
que a chávena do café nos aquece os dedos
que os ruídos transeuntes são música de tuas asas
- ao certo não sei - talvez
das rugas
das cascas de nozes que à noite parto
pelo prazer infantil de as imaginar barcos
e nós miolo - corpos colados
num mar só nosso
num ritual que é meu [e teu]
d'a_mar-te.
sabes
queria encolher o pescoço no volume do teu ombro
os meus olhos de jade e fogo
no chão tórrido dos teus passos
queria
despir-me da culpa de te amar
como se amar [nos] fosse este vestido do avesso
caído aos pés da cama - barro que aguarda o vendaval
das folhagens
engulo em vão. a boca sabe-me a ti, sei o teu gosto - és madagáscar.
as frases existem na curvatura da mandíbula
são a serradura lenhosa - o tronco e os ramos,
o cheiro vivo da saliva, o pinho,
o madeiro de natal
e eu a Fénix renascida,
o coração a bater
descompassado - o peito arqueado
a boca, sílaba entreaberta
a precaver-me da tua falta
os papéis, os laços, esvoaçantes
a respiração dos cabelos em carris vazios
o silvo metálico dos comboios
as nossas pernas fracas, tíbias,
queria (oh, se queria - quererei sempre), sucintamente,
dizer-te, como te digo,
sem limites
desta saudade de percorrer [te], trilho e cidade.
e chegar-te.
Inédito, Nov. 2011
Imagem da net
e deste mar
e deste tejo
e deste céu anil, cinzento,
em que acordamos
cerzidos vanguardistas pelas goivas renitentes
onde o canto das sereias
o bramir a preito
de salmos orgânicos ao vento norte
refulgue líquido, maior, em solos de marte
do que a força das correntes
a que se aguilhotinam, sem nexo,
os povos brasonados
e desta arte de ser[te] tanto e nada ser
fala-nos, sublime,
o tempo esconso da memória
o aconchego doce e morno do favo
o alcance
o chamamento
a vida secreta e o labor inato, instinto fértil e hábil,
(a vida sob o chão profundo onde assenta a cruz de ouro
o padrão, o nervo férreo da vontade)
das formigas
das abelhas
ou ainda
o pássaro cristado que pousa d'asas coladas
e se solta livre e voa do augúrio fatalista
lamacento
dos trilhos imprecisos da noite derribada
no limoeiro do quintal, seu torreão de menagem,
o meu nome de moura
tua rainha
e esta chuva (ai, esta chuva, qual granizo em folha de ferro)
de chover[te]
imorredoura e permanente
na saliva macia de meus lábios
a aurir-me a fala com te digo, [e]terna, miríades de loucuras, amorosidades,
capitão de mar e terra, de meu corpo e minh'alma,
a clamação do inaudito
nos sinos replicados
a acolher[te]
"aquele que chega, e partindo, jamais parte..."
a cidade que é minha
e agora tua
a saber[te] tão perto
e tão distante
na nudez ocular de minhas íris verdes, meninas,
a corda d'água que nos prende
pestanas d' infinita escala
música
d'harpas celestinas - o concílio dos deuses
ecoantes na amurada e na vigia, escotilha
do teu barco, raio de sol, que canto em laboriosas linhas, jubilante,
e deste mar fecundo, burel de seiva_semente_seda,
senhor, [te]sendo, a ti me confirmo,
sómente,
... tecelã d' a.mar-te.
Inédito, Nov. 2011
Foto da autora
______
Goiva (in priberam)
Se veladas as brancas velas se não desfraldam
no moinho altaneiro do pavor,
quando, das tuas mãos os gestos não [me] são brandos,
mas alvas as farinhas do amor,
se encobertas, no céu burilado a chumbo e prata,
estrelas recatas se cintilam andaluzes
no lusco-fusco,
ao esplendor das tuas íris meninas,
e se, destemerário, pirata da minha alma,
do meu corpo, do meu sonho,
te ocultas em cultos prosaicos
na senda insondável de desabrigados portos,
e se, dominando o mar, colocas nele estacas
que te impedem de navegar …
Oh meu amado, que misterioso pecado foi o teu
a quem não é permitido vislumbrar sequer a
bambolina nos palcos do céu?
____
in, No Princípio era o Sol, Edium Editores, 2008, da autora
(pág.90)
Imagem da net, desconheço autor.
Das lezírias os trevos declinados ao sopé das colinas
e dali, das estrebarias, o cheiro das aveias e dos fenos
a esculpir d'afectos as narinas abertas dos animais.
Afago ao de leve cerdas ao tempo,
entrelaço, na brandura da noite, uma a uma,
pérolas, fitas coloridas, em crinas hirtas de poemas
e deixo que minha cabeça tombe
que livre entorpeça e sonhe se carrego todas as dores
das negras mulheres d’Atenas.
Abraço-te p’lo pescoço,
coloco o pé descalço em estribo. Ágil, salto.
Aninho-me então longitudinalmente em teu dorso.
Segredo-te felina ao teu ouvido:
- Sabes … Gosto! Gosto quando me prendes,
quando me dobras pela cintura
e examinas o que se mostra, o que se esconde,
no vórtice sedoso do decote …
[...]
E de novo e novamente m’enlaças
e me danças lépido e franco
e me profanas
e me endeusas na sensualidade latina de um Tango
o fogo alado do meu corpo…
Neste rio inexpugnável de lembranças
de que me (re)invento e jejuando, m’alimento,
viajo mística em várzeas supremas d’alecrim e d’hortelã,
saio e entro,
mil vezes,
vezes sem fim, em celibato de alma,
em nomadismo cigano, por dentro do rio salgado de mim
sem hoje
sem amanhã
…assim.
E sou ausência
e sou presença aconchegada nos meus braços;
E sou Infanta
se danço a valsa debutante na ternura, na tremura dos teus passos…
Republicação, poema de 2008, Luso-poemas.net
dos astros e dos (teus) lábios
tão carente
se faz a minha estrada
como se fosse possível
dobrar a própria aragem.
Inédito
________________________________________
de todas as palavras
moribundas
algumas permanecem
nos meu lábios de água
em lume
líquidas lácticas canais abertos vasos [de guerra] comunicantes
lava d'arte rupestre
- quem sabe? -
quanto
o sol da praia o dia claro ou a luz de um farol
após
a noite
a bruma
a ondular-se
batel barco barca-bela espuma labareda.
de Diógenes, sei (me), a narrativa incrédula
do princípio
elementar da fala e do gesto
e desta
a sacudir-me de um espaço improrrogável
a perambular-me
dos passos
dos meus passos perdidos na crista da falésia
donde não atracavam
antes
nem aves
nem asas
apenas
no peito dos pássaros primitivos
se anunciava a tua vinda
a diagénese química a biologia diluviana do amor
acalentado
da oceanografia
de teu corpo de teus braços
sob o manto solto dos meus cabelos
a trança desfeita o nó dos teus dedos
o sorriso, epopeia de teus e de meus lábios
a grafia acesa a escuta activa
dos lóbulos e das orelhas
das cigarras
a que colo as aspas
a cedilha a vírgula o ponto
o espaço em branco
o poema in vitro
onde morro a renascer[te]
de metamorfia gradativa …
a con.sentir-te, apostrofe ou talco candente
de milenar estrela
de cinco pontas
jurado (e)terno
em sedimento de mulher...
de todas as palavras moribundas, é-me, sendo, vida, eternidade em mim. é quanto basta...
Notas:
1) aludo a Diógenes de Sínope
2) diagénese - conjunto dos fenómenos que asseguram a transformação de uma rocha mole numa rocha coerente...
Poema Inédito
Tela de John William Waterhouse "The Lady Of Shallot, 1888"
quando a noite desce
ao lago manso dos meus olhos
e os teus lábios são imagens inventadas
na flor das nossas bocas
de sal e chuva
uma inquietação pecaminosa de vento
de pupilas dilatas
tece à fala fria da lira um anel de fogo e prata
rasga vespertinos horizontes
cordatas entre seitas sem terra
toma a cor de todas as tempestades do mar alto
e é tudo
e tanto quanto, despindo, [me] agasalha, núbil, a pele
e rasga o ventre
se, de te amar, de amor maior, se fazem musguentos e laicos os meus dedos
e, para que passes, da mesma cor pintei as estrelas
as estradas
as pontes
os pórticos
e os poentes
e tomei minhas as dores e as rotas
dos (teus) desertos ...
Inédito
Imagem da net
Terra de tristes astros
estes
meu amor
em que desperto da floração dos dedos e das águas
ao toque ascético
- um paraíso inventado -
terra de tristes astros
meu amado
em que adormeço
num ápice sonolento e casto
num pestanejar de verbos e sílabas
e [te] viajo em quilha sendo asa
comprimida na impulsão dos sentidos
sob mandíbula de ave edénica
soletrada em ti, parca e incompleta,
estátua de sal
em pradaria
a somatizar parcelas
riscos paralelos, predispostos ao alto, a giz, nas pipas
e nos aros dos barris
como dólmenes, ou menires
aprumados
proscritos
em searas tardias ao ritmo de uma vazada de cartas
Sem sentido
- a solidão perpétua -
dos números primos
dos elementos e das tabelas logarítmicas
que não [me] cabem nos olhos
e resvalam
esquiços de brilho de mulher expulsa do templo
e que jaz oculta nas searas nua e já fria
e deste rio
sobrevivente ao ensaio
ao voo vitalício das águas e das águias
ao adornar dos barcos e das jangadas
ao folhear ravinas impensáveis de um rosário
feito de nadas
Terra de tristes clarões (tão) invisíveis
que me trespassam
- e são as noites e os dias -,
o ventre alado, os dedos esquálidos
e que
(me) secam em dissipação de traços a pele de um compêndio
amuralhado a couro com atilhos de vidro
sacrário de folhas murchas e rostos pálidos
e me falam de um tempo
índigo
de um caminho
das terras do demo e do encontro
- principio do mundo novo -
que me és
astro luz e colo
lugar de ardor e labareda intensa
retalhe d’ água pacificação de incenso
em que me sento emanando a chama olímpica
e desfaleço a alma
exausta
o córtex o cerebelo e o corpo, alfim,
na mineralidade porosa da pedra e do poema
menir, alquimia exilir da vida, e ara ou via sacra,
talvez
o cálice mosto da videira
o cálice de cicuta
urdido em fé
o alinhamento exacto o sol dos barcos e o espaço vazio
e cheio (tão cheio)
de ti
em mim
...
Sobre nós ressoa o peso das multidões
em afã esvoaçam pássaros
impetuosos insolentes bastos
ecoam
cânticos gregorianos
na garganta da serra na mansidão dos balidos e dos pastos
elevo os olhos
mais alto que os braços dos guindastes
mais largo que a rota dos indigentes
onde me sabes
e, no arrebatamento de um verso,
eis-me, como me queres, o seio aberto, o ventre nu,
e de novo sou ave tíbia, vacilante,
e tu o ninho, o barro, a ilha, ou o gato em telhado de zinco quente
(tanto me faz)
a que me dou ao som da pele retalhada a laser na penumbra andaluza
de um escotilha de pestanas húmidas
(uma lágrima só)
e eu quero da ilha
o povoamento dos mastros
a vastidão dos dias e dos corpos
sobrepostos
a feição incendiada dos ventos nos restolhos e nos campos
o mundo ávidos das poças de maré
e apenas
quero de ti o afeiçoamento dos teus olhos
nos meus lábios
entreabertos
sabes,
é por ti que alimento os dias e esta arte
de sucumbir
no oxigénio que me falta em metamorfose de fungos e mariposas
(e de te chorar,
amor,
chorando rosas)
e me são largos os gestos das ceifeiras e dulcíssima a pureza fálica dos menires
o mimetismo (tão nosso) dos silêncios
e me escorrem gritos
na sanguinolência sem espinhos dos afectos
a que me entrego
e os meus lábios
ai os meus lábios, amado, são (tão) leves
nos teus olhos
a interrogar o sol das estevas
e o sal das pálpebras
e os dias
de gourmet...
Inédito, Alentejo, Set. 2011
Imagem da net, autor desconhecido
fomos perdendo aos poucos
a inclinação agressiva da onda
a luz
nos dias velhos
é um misto
matiz de Primavera e feixes de Outono
num tremulezir de laços
nus
a taça em que bebes a noite pura como água
o musgo dos meus olhos
salsos
a dirimir na praia
tudo ficou plano
os meus lábios tornaram-se mais amenos
na busca dos teus
alas d'alvora
caminho-te devagar
os olhares são [nos] mais distantes
e tão mais próximos
qual
procedes do tempo
ápode
e dos milénios
antes de inventada a roda
prófugos
seremos sempre, ascetas ou perdulários,
a bridar
a cor tangível do fogo que nos consome a fala
entre a espuma e o mergulho
declina-se
o crescente
em linha
avistado da terra
e nós, cristãos e mouros,
sabemo-nos
artífices das margens
cerzidos
à mó
celeiro e trigo
areal e vaga
de um mundo novo ...
Poema Inédito
Foto da autora (Vilamoura, Algarve)
"NO PRINCÍPIO ERA O SOL" Edium Editores
.
» Aleluia
» canto do mar grande e d'o...
» Se veladas as brancas vel...
» tudo quanto agasalha a mi...
» sobre o teu corpo imenso ...
» levo-te pelos dias indizí...
» quando de mim se ausentar...
» cintilação dos impossívei...
» eu vejo os dias e as clar...
» dos céus dos meus olhos s...
» pai ...
» o que farei com estas ros...
» de te chorar, chorando ro...
» se houvesse no meu peito ...
» ... este poema que te ofe...
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