Não canto nada que não seja
o amor
num poema diferente de cor rosácea e branco
- candura sitiada entre
a voz da terra se que escorre ambiciosa
no veio escuro do tempo
e a garganta onde
o grito
se solta ávido
e revolto
se grito a profética fome
das mulheres que habitam setas na carne do teu peito
e se aninham fêmeas a medo e a custo
sem toque outro que não seja
d’arpas
d’alaúdes
d’liras
no delírio confesso
de serem elas próprias
todos os instrumentos
acordes finos
senão gemidos, de violoncelos,
de violinos.
Não, não canto mais que não seja a dor,
o desencanto
o abandono
e a eterna busca do pigmento da tinta
que imagino exista
na alma espalmada do ser autista
o espaço vazio entre o arco e o alvo
o dardo que espeta o músculo uterino
de um corpo.
Do amor
canto o poema contínuo o plano sem tino
o sangue sangrando
velas pandas por dentro de si:
o esquecimento
o coral distante distinto
no mergulho insano
na apneia em espanto…
Espanto-me e
imagino um poema como uma árvore
um baloiço de ramos
um fruto supremo
suspenso
maturo
macio
suculento
e um chão por baixo, rectilíneo, plano,
calafetado a seda verde no verde das folhas
e quente, na febre dolente das vagens
na fúria das águas
antes
e, de novo e sempre, sem anúncio prévio as chuvas chegam
em bátegas profundas em quedas maiores
e retalham os riscos
e molham os gritos
onde escrevi
amor.
Não, não canto nada que não seja rastros
de mim e de bichos, de insectos alados, de flores e de rosas
e mariposas,
lacraus famintos e ínfimas formigas
polvilhados em luz
em baba
em lúmen
rastilhos na noite de vaga-lumes
num jogo d’enredos de boca saliva e língua.
E cantando ouso viver.
____
Republicação
Lx, Abril de 2008
Publicado aqui e no Luso-poemas
Imagem da net, desconheço autor.

indiscerníveis
alheios ao afluxo de ruídos
ao madrugar dos lábios em lençóis de estopa,
à consistência da luz
repousam nossas, sob a claridade eterna da lua nova, a celebrar-nos a data,
poças de orvalho clarividentes
onde o futuro foi ontem e, breve, se demora
...
indiscerníveis, aqui, no lago dos meus olhos fundos e no meu ombro
todos os momentos partilhados
a curva singular, luminescente, d' etérea forma em trança,
de um maio em flor-silêncio.
inabitadas, predizem-me as linhas da vida
nas minhas mãos em concha
- o espanto, o pasmo da descoberta, um mar levante, inquieto,
a sopar sueste, submergindo quilhas, cascos e convés,
marés e navegantes
a um só tempo -,
e, a fome inocente, das pardelas e gaivotas,
d'amoras silvestres partilhadas.
celebrada, eis-me, agora, no ventre das searas em que me acolho,
na seiva que nos percorre, comummente, d'infindável arte,
e, neste sussurrar de brida e fola nas marés: fala-nos (bem sabes)
da beleza das árvores improváveis
a florir antes da nascitura da folha,
da agremiação
madura do teu corpo em meu corpo,
e da ternura
solta e emancipada
e do tempo do inverno [a nossa vida], igualizada à forma primeva
das nascentes dos riachos recortados nos prados
verdes, no verde canto-alento
dos meus passos
imensuráveis
- estas serras, estes caminhos, estas veredas periféricas a bordejar a aldeia clara -,
e nada, mas nada, além do vento no campanário,
meu amado,
se ilumina, e nos ilumina, maior, varejando a terra,
que a luz que nos acresce por dentro,
oculta das pálpebras, em lume brando,
e cruza
o espaço o colo e o tempo de um poema
e gera, basta,
a rosácea setentrional e o rio que me finta,
qual teu rosto, d'água e sal ...
e se aquilata
deste lago de minh'alma, mouchão de tejo,
onde Poesidon se deita sem dormir, dulcificado, desperto em quilhas de barro,
- são barcos, senhor, são barcos, as cinco esquinas, o teu reino de nenúfares, a tua armada -,
...
indiscerníveis, 'inda, as sílabas áfonas, quão indizíveis me são os rumores do grito
a ecoar das fontes, jubilado, e o teu nome em frémito
sustenido
e esta vontade
incontornável
de dizer-te, em noite de lua nova, ao teu ouvido,
"... amo, amor, amado..."
entre
a faringe aberta e o cerro maior, forma injuntiva, dos meus lábios cerrados...
Poema Inédito
Foto: Renato Rabe
não [me] darás nome
nem falarás de mim em vão ao tempo que passa.
há nesta pátria um arauto de míngua
um arnês inseguro
que nos sustêm da queda abrupta
os punhos de renda
e esta mágoa acesa
e a revolta
a reclamar abril
nos olhos desavindos dos velhos e das crianças
há fome no meu país, sabes?
não [me] darás nome - sou a inominável
a Liberdade jorrada do teu ventre de silêncios
a sílaba tónica dos povos amordaçados
a palavra
a gnose suprema do teu e meu entendimento
o dia claro, a madrugada de linho e nardos,
a que aspiravam os poetas
sou
o mês dos cravos que antecede as rosas
...
e chove, sabes?
chove a cântaros!!!
não, não [me] darás nome diferente - se sou o mistério do ovo
a água
o ventre que embala a ordem primitiva
e o mel
alento e sede, bênção e cura, dos teus lábios d' olhos despertos.
e tu, a força hercúlea e sábia de um maio-brida que enfola a vela
e ergue bandeiras em mastros
homem-seara nascida que não se vergará jamais
e nunca!…
Inédito, 25 de Abril de 2012
Foto: Ben Goossens
"Há muitas coisas espantosas,
mas nada há de mais espantoso do que o homem."
Sófocles, Antígona
recomeça-se num abraço abandonado,
alegoria breve
na distância em que te conservo
depois
existem as arestas dos (meus) dedos
e a magnitude dos (teus) lábios
e, alheios a tudo o mais,
os brilhos
e os silêncios
a crescerem íntimos na janela do tempo
transcendental
a tremeluzir
de uma linguagem quase infantil
afásica
monossilábica
depois ainda,
o corpo fechado
ousa o ensaio das águas
indizíveis, inomináveis,
seiva
suor
e lágrimas a salgar a íris própria
ternura eximia
e vagarosa
de te olhar
além dos olhos.
infinitésimo é o sentido da vida
após a Páscoa.
Poema Inédito
Foto da autora
____
Cabe aqui um agradecimento:
Sem que me tenha dado conta, este blog ultrapassou 150 000 visitas.
De cada uma das vossas leituras vos sou, pois, imensamente grata.
A todos, um enorme Obrigada!
pudesse o rosto
sob a coroa
iluminar-se
níveo e basto
e as mãos madrugarem-se livres
sinos d'alvoroço e estrela d'alba
na tela ampla do teu corpo
e tu, bouquet em flor, em meu regaço,
pudesse
este pretérito imperfeito do verbo [in]conjugado
ser[te] acto
de bem-querer
carácter espesso de que me enformo
e em que adormeço
na dormência
da noite
e os meus passos
se haveriam de tomar caminhos
na antologia etérea dos teus lábios
de dizer
da luz formosa que nos fende por dentro,
e deste abraço
da minha mão, em teu lugar ...
...
nunca mais amarei Senhor
que me não possa amar!
Inédito
Imagem da net
se hoje viesses
sentar-te no parapeito de meus olhos
de água
ouvirias
rios salgados
a desmancharem a trança longa das pedras
o esoterismo dos símbolos
mercúrio e vénus
no sorriso litúrgico dos cânticos divinos
e, da voz dos salmos, madrigais de dermes,
aluviões de margens a cavar silêncios
aos vales mais profundos
se hoje viesses, meu amor,
amanhecer claridades foscas nos meus olhos
semicírculos de musgo trigado à cor solar das pradarias
haveriam de, em ciúmes de nós,
as estrelas de alva1)
poisadas em céu de Inverno
beber a lua
na avidez de um só trago
madrugada diferida e expulsa p'la tua espada,
noite fora de portas,
à palidez colarina das giestas
se hoje não fosse já ontem
e não cantassem agora (que tanto as oiço), uníssonas, as searas roucas
a ausência e o afã das ceifeiras
em ladainhas de sal e trigo
e Lisboa não chorasse
no corpo de uma guitarra a morte o xaile e a chinela
a mouraria o castelo e a severa do fado...
Republicação, 2011, 14 de Março
Imagem da net
1) "Onde estavas tu... quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?" (Jó 38:7).
apenas ser-te
chão
borboleta
ou asa
tudo ao redor são ilhas
[dizem-nas, as gaivotas da praia norte, desabrigadas]
mas apenas os teus olhos
liames
veredas luminiscentes musgo e viço
e verde o trilho
o percurso
preciso
e exacto
onde amanheço
a movimentar as vagas
o verde. a erva
prerrogativa de ternura e
brilho
em meu olhar.
Inédito
não aceito. não me digas
do oiro
megalómana evidência dos dias súbitos
do meu reino de princesa
apenas areias, silícios do deserto a retalhar-me a alma
sequer
me fales
das amplitudes oceânicas
qual searas amadurecidas de trigo
que não se abarcam
sustentadas à míngua da terra
no espaço dos meus braços
alvo e ténue
o casulo de pele, espaço que, ad æternum, te concedo,
diz-me, oh diz-me, para que escute, uma vez que seja,
meu senhor e rei do reino onde m'habito,
do alvor, do silêncio
alastrado,
húmido e líquido, terras de sangue e mel, alba aurora de alabastro e d'azeite
candeia luminária
acesa
no porão dos teus navios,
e de ti, fulminação inaudível de todos os impossíveis
diz-me de ti [de ti apenas]
e do teu ritmo
fragmentado e sucinto
em nanodécissimos virgos de segundos
na espessura dos meus dedos, de meu peito,
luz, dardo divino,
e dos teus poros
desabrochados em espera
na curvatura dos meus lábios
centelha esquiva sob meus olhos breves
[tão breve sabemos o nosso tempo, aqui...]
e dos teus olhos, dos teus olhos
[tão] incrédulos
vacilantes e achados
no detalhe circunscrito da nossa sede de sorrisos...
diz-me. diz-me, oh sim, diz-me,
que
apenas sei, em mutismo,
da pobreza extrema de não te saber à proa deste mar infinito ...
Inédito
Foto: Haleh Bryan
quando entardece
os bichos rastejantes da floresta
com que me igualo
regressam em bando, escancarando todas as portas da cidade de Davi.
e eu regresso, mendiga esfarrapada, à pedra,
soleira antiga e fusiforme, onde deixei teu nome
agora tudo se move
em torno dos teus olhos d'água - pássaro, miragem, inquietude ou asa
que inventei
na quadratura do sonho. agora, entre as tuas mãos (apenas)
há um cubo mágico
a combinação de faces e de arestas
um mecanismo de Rubik
depois o sol, em vigília de verbo, amanhece a copa das árvores
os cheiros intensos de resina invadem a floresta donde vim
dizes-me cidreira e mel. e mel-marfim.
e os teus braços
sons nascentes
rodam
a poente
cinjos ao ventre da terra
digo-te, búzio em ouvido,
do vento e da água
da estrela de cinco pontas que me guia (sempre)
da magnitude da notícia
da estação das andorinhas
regressadas
dizes-me
em promessa dos dias longos
na dupla articulação dos maxilares
na longarina da fala
tutto ritorna alla prima forma, bella donna
imporium se move, tutto se move ...
o pó regressa ao pó, a lava voltará a ser lava.
só a vida vivida é realíssima. mesmo a inventada.
quando entardece tu chegas. noviça é[nos] sempre a hora. e a chegada.
Inédito
Imagem da net
trago-te o de.gelo da noite inóspita
a fala pétrea das águas
pousada nas nervuras do meu corpo
o peito oferto
as primeiras folhas
a transparência nívea
que encontro entre dois terços de luz
e a herança dos dias largos
na primavera próxima
trago-te
meu amor
o registo exangue
do que vêm os meus olhos
o cieiro dos trigos
o levantar íngreme dos abibes e narcejas
nos restolhos alagados
quando amanhecida [te] abro paliçadas e janelas
enigma de dizer[te] a cada hora arrebatada
do fulgor das aves ternas que se ocultam
nas pestanas da casa
e do quanto
me és, sem que suspeites ou saibas,
a embriaguez de leite seiva estilete crença e verbo,
a sede de beber-te
gota-a-gota, trago ou gole, de silêncio e de saudade
vagarosa, deponho a dádiva.
falo-te agora do advento primevo
recurso de primeira instância
apelo de bom porto e de ancoragem
e de ti, água,
que me cais, e que me unges, em sinonímia de texto e forma,
ostra, enzima, lacrimejante pérola,
de uma telha nobilíssima do beirado da campina.
trago-te, o canto dos meus olhos o mutismo dos meus lábios e o decante das fragas ...
Inédito
Foto da autora
... acima de todas as coisas
na invisibilidade corpórea dos mudos gestos
subjaz ao ventre breve da falésia
apenas
o respiro-alvor da caliça solta das paredes. adentro-me.
o cheiro lenhoso das mastros da borda-d'água - longitudinal floresta,
folhas orgânicas em que adormeço a novidão sem pressa
moroso
o chão que sou a abrir-se sob o rastilho aceso dos teus passos
acorrentados
morosos
os meus dedos ímpares (de cada pé, de cada mão)
a dizer-te da fertilização
dos lírios infinitos das lajes e das rosáceas dos altares
e do piar inquieto das gaivotas deleitadas
no acordar das tágides residentes
no rio da minha cidade
circunstâncias que nos enformam
afunilando
a erudição do verbo e deste a amolecer o instinto
e as memórias
- excessivamente -
- excessivamente -
e, invicto, o alvoroço o despertar das aves
as manhãs despidas das zinias e dos sábados e domingos
a leveza dolente do teu cheiro de seiva e mar
a transparência láctea da água
a erosão da pedra
a casa subida - o arrebatamento das asas o rubor dos bicos
o sussurro pálido dos socalcos e dos decotes
das rochas
e, invictos, os teus braços
a rogo de não saber-te
[urgente. urgentemente]
a estreitarem-me, transfigurada tranquilidade,
anteditos, áfonos, desmedidos
súbditos de um reino de aquém e além mar
línguas lábios e istmos
de acervo e de silêncio.
e esta dor de ausência na gesticulação dos lábios,
presbita constatação de amar-te
[vertíce. vórtice. vertiginosamente]
além do verbo. além do espaço.
... acima de todas as coisas, casa da falésia, império dos sentidos.
Inédito
na verdade, era madrugada ainda na mariposa dos lábios
e o mundo virginal do verbo
não tinha irrompido a renda púrpura dos teus pulsos
quando te falei de um músculo
retalhado e oculto
a peito aberto
sob um colar de conchas libertas na luz nocturna
de um terço madrepérola de sangue e e lágrimas
e dos pomares profícuos do meu corpo de pedra e chumbo
onde, os frutos biológicos e sadios,
mercê da inquietude dúbia do vento à copa das árvores
se convertiam
de polpa
em húmus
na verdade, ainda, na noite crua das vagas,
solitária é a lua
e quão suspeita e súbita é, à face da terra, a tempestade dos olhos...
ou dos sentidos, bem sabes...
Inédito
num corpo de papel
sobram-me
as mãos e os gestos
de te_ser o risco
macramé
- geométrica forma. os dedos o ponto e o nó -
a boca e as palavras
(profusas)
de dizer
a cegueira a fome
de teus lábios
subjaz a carne marcada
orgástica e vitalícia
o punção de teu nome
tesoura
recorte
embriaguez de sonho
sonhar-te
o fogo. ai o fogo, maior que água
que [me] consome
bebendo
ao redor
a última gota
da distância que me isenta
(fosso do meu castelo)
e me confirma, sulista moura,
e sou-te, irremediavelmente,
península sitiada,
mapa
lanterna acesa sob o manto das tuas armas
guia
gruta marítima
furna
subaquática
improvável local
aquém e além dos mapas consentâneos
onde te espero
alada
e onde os deuses
reunidos em concílio
rodam, tribais, à nossa volta, e outorgam
no archote clarividente de um sol-papiro
que, se não ocaso, então
será em nós
- na flor evangélica e carnívora da nossa boca -
o equinócio
o instante preciso em que o sol
em aparente órbita
cruza, cerzindo,
a própria esfera celeste ...
num corpo de papel fica ditosa a marca d'água
a escrita hieroglífica e cuneiforme
o rubor do sangue que nos ilumina por dentro
o amor sem mácula
e o devir
(nascente, boreal)
do tempo preservado nas pedras.
Poema inédito
Imagem da net
surges-me, tecitura timidamente nua
no tempo dos seixos,
a inflectir-se a sul das formas pantanosas
e dos sentidos (ocultos) no âmago da chama,
lanterna de Aladino,
onde o ocidente tomba e se demora ao vapor das horas
revelas-te,
gentílica forma, paladino andante, senhor de um reino,
de madressilvas, de pérolas e de rosas
sufocadas
- a minha pele, que é tua, teu habitáculo permanente
cada poro, cada condado, cada alvéolo, sendo
vaso comunicante
em inclinação de sol
rarefeito
na flor do cardo, na fogueira primeva e restolhada da planície
digo-te, adolescendo,
da falibilidade dos deuses no Olimpo,
de um caudal, de um nó de sete milhas de bruma e vida,
a unir-me, musgo, à pedra basáltica da tua alma
autêntica filigrana da palavra
em luz que cega
naufraga
sobre todas as coisas, inominável, soletro-te,
íntima, morosa, como me sabes. por vezes, rápido,
(confesso)
em pulsação do ventre
na vastidão da terra enrubescida
na pele dos pulsos
na raiz dos olhos e rente aos lábios
... retorno lentamente
digo-te então, gentílica forma, de como se fazem brandos os lírios bravos
dos campos em pousio,
à causa justa das nascentes.
de quantas vidas me faltam, rio, antes que sejas voz no térreo damasco das minhas margens?
Inédito
trago-te comigo
desde a largueza dos tempos
e da liberdade das brisas
onde os lábios das crianças
e os olhos
das ceifeiras
eram cristais certos a fluir além de vésperes1 e ocasos
e os homens
de boa vontade
não sabiam 'inda da força do acelerador de partículas
trago-te, na humildade desnuda das coisas simples,
no canto dos pássaros
no romance dos astros
na lua cheia da minha cara de bolacha maria
no rastro dos bichos no vedo das moitas
(cada ruga que nasce enquanto durmo)
na juntura dos ossos
quebradiços
na marcha lenta dos pinguins, das tartarugas,
no vermelho oculto
na filigrana
e no tule, do meu vestido, imaginário, de princesa
no baile e na trança do meu cabelo
(a tua dádiva)
e, bem sabes, bem sabes,
porque não desisto, jamais e nunca,
na polpa carnuda dos dedos
com que desenho, determinada, na areia da praia fria
a esperança vindoura nos dias que ‘inda não vernaram.
trago-te em mim, porque não sei, não me permito, nem quero, nem ouso,
Aleluia: significa "Louvem! Adorem!" ou "Elogio (em)"- (sejam positivos).
____
EXCELENTE ANO NOVO, meus amigos. Aleluia!
Bem-hajam pela companhia, pela vossa presença...
Fumegante
no jardim íntimo dos meus olhos
o Dezembro a neblina
em que cultivo o inaudito
o indizível
e a distância
inefável, extraordinária,
o sal-gema
de que um dia se fez em mim, o mar grande e outras águas,
a forma gerundiva das estrelas pontífices, magas,
o símbolo de David
e esta falta a que chamo sem saber que nome lhe deva
ou possa dar
de inexistência
e mágoa
plena
a macerar-se poalha em brilho e canto
na fala, talhe, esquiço livre, dos nossos lábios
e o Natal
ai o Natal dos passarinhos sem berço
aqui tão perto
a formigar[nos] o macio das asas
o tempo efémero dos presépios
o azevinho, as bagas,
o vermelho dulcíssimo das labaredas
o gemido das pétalas
silenciosas
o ópio, a papoila pianíssima dos poemas...
e, no hino, hossana ária, liturgia de t’amar
.
.
.
Acredito, oh sim, acredito, e não duvido,
de que renas virão
no dia do juízo final abraçar-me
fundida a ti
na torrente húmida dos cabelos dos astros
no sortilégio dos pântanos
no encantamento das cidades
compartidas
- a lei gravítica e reaccional
que, indubitavelmente,
nos repele e nos aproxima
como bandeiras de paz justapostas às hastes terríficas dos guindastes
no Livro das Horas,
em tudo o mais, sei minhas
tão-só, e apenas,
as paredes da casa grande
a revelarem-se laudes musguentas
vésperas nas frinchas da iniquidade
e o musgo manso das coisas ímpares
em que te deito, Senhor do meu Presépio,
Luz basilar que me ilumina a estrada
ad eternum,
tua, e virgem de ti, qual Fénix renascida,
apóstrofe
sílaba áfona
informe e cálida
sob
uma palidez de pano níveo e cru …
Inédito, Dezembro 2011
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.
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