Sábado, 21 de Janeiro de 2012
dos pomares e dos frutos

 

na verdade, era madrugada ainda na mariposa dos lábios

e o mundo virginal do verbo

não tinha irrompido a renda púrpura dos teus pulsos

quando te falei de um músculo

retalhado e oculto

a peito aberto

sob um colar de conchas libertas na luz nocturna 

 

de um terço madrepérola de sangue e e lágrimas

 

e dos pomares profícuos do meu corpo de pedra e chumbo

onde, os frutos biológicos e sadios,

mercê da inquietude dúbia do vento à copa das árvores

se convertiam

de polpa 

em húmus

 

na verdade, ainda, na noite crua das vagas,

solitária é a lua

 

e quão suspeita e súbita é, à face da terra,  a tempestade dos olhos...

ou dos sentidos, bem sabes...

 

Inédito



Autor: Mel de Carvalho às 23:17
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
num corpo de papel

 

 

num corpo de papel

sobram-me

as mãos e os gestos

 de te_ser o risco

macramé

 - geométrica forma. os dedos o ponto e o nó - 

 

a boca e as palavras

(profusas)

de dizer

 

a cegueira  a fome

 

de teus lábios

 

subjaz a carne marcada

orgástica e vitalícia

o punção de teu nome

tesoura

recorte

embriaguez de sonho

 

sonhar-te

 

o fogo. ai o fogo,  maior que água

que  [me] consome

bebendo

ao redor

a última gota 

da distância que me isenta 

(fosso do meu castelo)

e me confirma, sulista  moura,

 

e sou-te, irremediavelmente,

península sitiada, 

mapa

lanterna acesa sob o manto das tuas armas

guia 

gruta marítima

furna

subaquática 

 

improvável local

aquém  e além dos mapas consentâneos 

onde te espero 

 alada 

e onde os deuses 

reunidos em concílio

rodam, tribais, à nossa volta,  e outorgam

no archote clarividente de um sol-papiro

que,  se não ocaso, então

será em nós

 

-  na flor evangélica e carnívora da nossa boca -

 

o equinócio 

 

o instante preciso em que o sol

em aparente órbita

cruza, cerzindo, 

a própria esfera celeste ...

 

num corpo de papel fica ditosa a marca d'água

a escrita hieroglífica e cuneiforme

o rubor do sangue  que nos ilumina por dentro

 

o amor sem mácula

e o devir

(nascente, boreal)

do tempo preservado nas pedras.

 

 

Poema inédito

Imagem da net



Autor: Mel de Carvalho às 20:36
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Domingo, 8 de Janeiro de 2012
gentílica forma

 

surges-me, tecitura timidamente nua

no tempo dos seixos,

a inflectir-se a sul das formas pantanosas

e dos sentidos (ocultos) no âmago da chama,

lanterna de Aladino,

onde o ocidente  tomba e se demora ao vapor das horas

 

revelas-te,

gentílica forma, paladino andante, senhor de um reino,

de madressilvas, de pérolas  e de rosas

sufocadas

- a minha pele, que é tua, teu habitáculo permanente

 cada poro, cada condado, cada alvéolo, sendo

vaso comunicante 

em inclinação de sol

rarefeito  

 

na flor do cardo, na fogueira  primeva e restolhada da planície

 

digo-te, adolescendo,  

da falibilidade dos deuses no Olimpo, 

de um caudal,  de um nó de sete milhas de  bruma e  vida,

a unir-me, musgo,  à pedra basáltica da  tua alma

autêntica filigrana da palavra

 

em  luz que cega

naufraga

sobre todas as coisas, inominável, soletro-te,

íntima, morosa, como me sabes.  por vezes, rápido,

 (confesso)

em pulsação do ventre 

na vastidão da terra enrubescida

na pele dos pulsos

na raiz dos olhos e rente aos lábios

 

... retorno lentamente

 

digo-te então, gentílica forma, de como  se fazem brandos os lírios bravos

dos campos em pousio,

à causa justa das nascentes.

 

de quantas vidas me faltam, rio,  antes que sejas voz  no térreo damasco das minhas margens?

 

 

Inédito



Autor: Mel de Carvalho às 10:17
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
Aleluia

trago-te comigo 

desde a largueza dos tempos

 

e da liberdade das brisas

 

onde os lábios das crianças

e os olhos 

das ceifeiras 

eram cristais certos  a fluir além de  vésperes1 e ocasos

 

e os homens

de boa vontade

 

não sabiam 'inda da força  do acelerador de partículas


trago-te, na humildade desnuda das coisas simples,

 

no canto dos pássaros

no romance dos astros

na lua cheia da minha cara de bolacha maria

no rastro dos bichos no vedo das moitas

(cada ruga que nasce enquanto durmo)

na juntura dos ossos

quebradiços

na marcha lenta dos pinguins, das tartarugas,

 

no vermelho oculto

na filigrana

e no tule, do meu vestido, imaginário, de princesa

no baile e  na trança do meu cabelo

(a tua dádiva)

 

e, bem sabes, bem sabes,  

porque não desisto, jamais e  nunca,

na polpa carnuda dos dedos

com que desenho, determinada,  na areia da praia fria

a esperança vindoura nos dias que ‘inda não vernaram.

 

trago-te em mim, porque não sei, não me permito, nem quero, nem ouso,

                                                                                      equacionar sequer

                                                                                                        viver d'outra maneira.

 

                                                 trago-te assim,  inteira, e levo-te,  Senhor de  Mim, a celebrar-te,

                                                                             Aleluia,

                                                                                        adoração,

                                                                                                       amor, alfim ...

 

 

___
Notas: vésper(es)
...O planeta Vénus quando se avista de tarde, depois do pôr do sol. = ESTRELA DA TARDE;  O ocidente, a tarde.

 

Aleluia:  significa "Louvem! Adorem!" ou "Elogio (em)"- (sejam positivos).

____

EXCELENTE ANO NOVO, meus amigos.  Aleluia!

Bem-hajam pela companhia, pela vossa presença...

 

 



Autor: Mel de Carvalho às 10:06
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
canto do mar grande e d'outras águas.

 

 

 Fumegante

no jardim íntimo dos meus olhos

o Dezembro             a neblina

 

em que cultivo o inaudito

o indizível

e a distância

    inefável, extraordinária,

 

o sal-gema

de que um dia se fez em mim, o mar grande e outras águas,

a forma gerundiva das estrelas pontífices, magas,

 

o símbolo de David

 

e esta falta a que chamo sem saber que nome lhe deva

ou possa dar

de inexistência

e mágoa

plena

a macerar-se poalha em  brilho e canto

na fala, talhe, esquiço livre, dos nossos  lábios

 

e o Natal

 

ai o Natal dos passarinhos sem berço

aqui tão perto

a formigar[nos] o macio das asas

 

o tempo efémero dos presépios

o azevinho, as bagas,

o vermelho dulcíssimo das labaredas

o gemido das pétalas

                         silenciosas

 

o ópio, a papoila pianíssima dos poemas...

 

e, no hino, hossana ária, liturgia de t’amar

.

.

.

 

Acredito, oh sim, acredito, e não duvido,

de que renas virão

no dia do juízo final abraçar-me

fundida a ti

na torrente húmida dos cabelos dos astros

no sortilégio dos pântanos

no encantamento das cidades

compartidas

- a lei gravítica e reaccional

 que, indubitavelmente,

nos repele e nos aproxima

como bandeiras de paz justapostas às  hastes terríficas dos guindastes

no  Livro das Horas,

 

em tudo o mais, sei minhas

tão-só, e apenas,

as paredes da casa grande

a revelarem-se  laudes musguentas

vésperas nas frinchas da iniquidade

e o musgo manso das coisas ímpares

em que te deito, Senhor do meu Presépio,

Luz basilar que me ilumina a estrada

           ad eternum,

 

tua, e virgem de ti, qual  Fénix renascida,

apóstrofe

sílaba áfona

  informe e cálida

sob

uma palidez de pano níveo e cru  …

 

Inédito, Dezembro 2011

 

____________________

 

Santo Natal a todos, meus amigos



Autor: Mel de Carvalho às 09:16
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Domingo, 11 de Dezembro de 2011
da existência.

falo-te

[de ternura, bem sabes] da delicadeza branda do bico de lápis

caran d'ache

 contido em ti

a dupla forma de um trapézio

de um invólucro - prisma hexagonal

e desta feição, brumosa e minha

de te dizer

["Se eu pudesse viver minha vida novamente..."1]


sendo[te] espiral de flor de tília justaposta

à brandura grafitada de um cedro,

 

falo-te

do risco

aguarelável dos teus lábios

depostos, entreabertos,  ávidos, na espessura tenra do poema

 

e da fragilidade da folha que o aguarda, virgem e branca

 

falo-te, reclinada nas marés em que amanheço, 

da solubilidade dos meus olhos

esmeraldas - topázios

cinzas, azuis , verdes e

transparentes            águas-marinhas

 

da existência salobra dos dias imperfeitos

da força das sentenças de resolução inabalável, qual charruas

a rasgar[me] silêncios das pedras lunares

 

e do cheiro

do bálsamo tangível dos círios ornados de giestas

 material de que me socorro

quando me agravo, contida no [teu] tempo,  e me impeço de ser

sonambulismo in vítreo no sono vazio dos dias virados do avesso

 

digo-te

[por vezes]  da cadeira de baloiço em que me sento,

do voo indizível  dos moinhos de vento

de D. Quixote, da fidalguia, de Dulcineia, conto-me estórias de mouras,

de reis, de rainhas, de princesas, de duendes e fadas, 

da viagem pálida dos desertos e da força centrípeta das  asas

rectilíneas, de reinos perdidos

por entre o nevoeiro consistente na ilha

e desta brisa,  sensação constante de boreal aragem,

balsa salva-vidas

suspensa do prodígio-ventre de a.mar

   visão melancólica em  busca permanente 

             do sublime e  subliminarmente absoluto

 

digo-te [talvez me oiças...] de como respiram de vida e graça

as espinhas as anémonas e os cardos da costa

de como se tomam de ti as minhas tardes

quando,  descalça,  trilho as rotas dos povos nómadas e  mareantes

 

e dos meus seios - da sensibilidade dos vidros

e dos meus braços - tábuas de teu salvamento

 

e deste Inverno de nenúfar e musselina

a evidência de um frio polar capaz de florear arestas próprias

 

falo-te

da existência coralina

para que celebremos a diversidade branda e o apogeu bruxuleante da cor mais pálida.

 

falo-te de amor enquanto abro o peito do meu vestido de verbo

[e de amor maior te falo]

antes que,  no sopro truculento das furnas,  na maré vaza, o mar  nos devolva,

na espuma dos dias  inabitados, o que, dos dias de luz, nos falta...

 

 (1)  Rubem Alves

 

 

Peniche, 10 Dez. 2011 (Poema Inédito)

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Autor: Mel de Carvalho às 12:00
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Domingo, 4 de Dezembro de 2011
falaremos de pássaros.

este é o silêncio

das linhas d'água pousadas a exceder dos dedos

em hematose pulmonar

 

a pele retida em câmbio

saliva  

gasosa       orgânica

d'alvéolos

assemelhados à forma macia do córtex

cerebral

 

surpreendidos

[são-nos] os fios lácteos

nuvens,  cúmulos-nimbos1,

cabelos núncios, trança em zig-zag

 

este é o silêncio

dos teus dedos

o fecho escoado no vestido do tempo áfono

 

a traqueia, os pulmões

ávidos

de respirar[te]

 

e o ritmo

impróprio do relógio do hall

a balaústra,  a vigia,  os vidros baços  -  olhos inaudíveis a submerger o rio

 

a casa que não dorme

 

o ganso a chapinhar no gelo      o lago do quintal

o cubículo em que guardo o milho, a alpista, e a taça

de cicuta

de beber[te]

granizo chuva  água    pedra

dissoluta na calçada

 

assusto-me

quero deitar-me nua e  já, depressa  e demorada

na pressa vagarosa

de uma vida [nossa] antes que seja tarde

 

quero esgueirar-me dos [meus] olhos 

da frialdade do lençol

do vento

gélido, imparável,  a tossicar

contra  a palidez invernosa do porto

donde m'acenas de peito aberto,

 

e desta noite

ai,  desta noite,  lisa entre-as-margens

 ...

 

coloco

as pestanas postiças no bolso do casaco

 

as penas, as plumas, os artefactos despidos

a nudez telúrica do ventre

 

e sou-te

como o Tejo

corcovada, resiliente, aos pés da cidade

- chama a flamejar[te]

qual rebento de árvore vivaz à morrinha estremecida p'la cadência do verbo

 

e sou-te [bem sabes, bem sabes]

este olhar sombrio de fogo e musgo

a porção ventral do tórax

macio e aberto

e os meus seios

colunas d’anjos reclinados

 

o [teu] canto

a sexta sinfonia de Beethoven

e o portal do paraíso eterno de que te dei a chave.

 

falaremos de pássaros.
da  maré vaza e das [nossas] histórias buriladas no silêncio dos lábios.

 

Inédito

Imagem da net

 


(1)“cúmulo-nimbo”
S. m. Met.
1. Nuvem núncia de trovoadas, de aspecto fibroso (por causa da presença de cristais de gelo), constituída de um ou vários elementos que lembram grandes torreões cujas bases se emendam umas às outras, e que pode estender-se verticalmente de 1 000 a 6 000m acima do solo.
[Sin.: nimbo-cúmulo. Pl.: cúmulos-nimbos.]

 "núncia"
[Do lat. nuntia.]
S. f.
1. Anunciadora, mensageira; precursora"



Autor: Mel de Carvalho às 10:40
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Sábado, 26 de Novembro de 2011
sucintamente

  sucintamente os lábios

habitação perene de dizer palavras

 

sucintamente os ombros

os abraços

 

a não conseguir adormecer a noite

 

o corpo castigado pelo verdasco

transfinito

 

- o jornal aberto que não leio

o cheiro a ranço que imagino tenha o meu corpo depois de morto -

 

sorrio. olho-me em espelho

os silêncios escorregadios como sapatos velhos,de solas safas,

ressoantes nos leitos dos nevoeiros - os lençóis alvos e máculos de ti

 

sucintamente te digo

da bétula encurvada no frontispício da casa

do puxador da porta que não roda

do embrulho do xaile garrido em que encolho

os meus olhos de jade

 

a face lívida

 - da fome colorida das framboesas -

das tuas mãos entrelaçadas

com a força necessária das bagas sob as silvas

 

dos gestos de te dizer

desejo

amor, amado, na irracionalidade da razão cerzida em bastidor

 

...

 

que te dizer ainda que não saibas? - porque sequer é domingo

e tu não chegas,

 

talvez

das pragas das formigas

            que não domino

 

desta mania de emparelhar as pedras

de ler palavras in.vertidas

 

falar-te

da humidade dos olhos

do pescoço comprido a esticar-se além dos dias dias infindáveis

das paredes caniçadas 

da teimosia

das sombras que o inverno traz às nossas vidas

 

afinal

 

dos bolsos vazios

onde encolho as mãos dos dias frios

dissimular

fingir

que a chávena do café nos aquece os dedos

que os ruídos transeuntes são música de  tuas asas

- ao certo não sei - talvez

das rugas

das cascas de nozes que à noite parto

pelo prazer infantil de as imaginar barcos

e nós miolo - corpos colados

num mar só nosso

 

num ritual que é meu [e teu]

d'a_mar-te.

 

sabes

queria encolher o pescoço no volume do teu ombro

os meus olhos de jade e fogo

no chão tórrido dos teus passos

 

queria

despir-me da culpa de te amar

como se amar [nos] fosse este vestido do avesso

caído aos pés da cama -  barro que aguarda o vendaval

das folhagens

 

engulo em vão. a boca sabe-me a ti, sei o teu gosto - és madagáscar.

as frases existem na curvatura da mandíbula

são a serradura lenhosa - o tronco e os ramos,

o cheiro vivo da saliva, o pinho,

o madeiro de natal

e eu a Fénix renascida,

 

o coração a bater

descompassado - o peito arqueado

 

a boca, sílaba entreaberta

a precaver-me da tua falta

 

os papéis, os laços,  esvoaçantes

 

a respiração dos cabelos em carris vazios

o silvo metálico dos comboios

as nossas pernas fracas, tíbias, 

 

queria (oh, se queria - quererei sempre), sucintamente,

dizer-te, como te digo,

sem limites

desta saudade de percorrer [te], trilho e cidade.

           e chegar-te. 

 

 

 

Inédito, Nov. 2011

Imagem da net



Autor: Mel de Carvalho às 11:00
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Domingo, 13 de Novembro de 2011
e deste mar

e deste mar

e deste tejo

         e deste céu anil, cinzento,

 

em que acordamos

cerzidos vanguardistas pelas goivas renitentes

 

onde o canto das sereias

o bramir a preito

de salmos orgânicos ao vento norte

refulgue líquido, maior, em solos de marte

do que a força das correntes

a que se aguilhotinam, sem nexo, 

os povos brasonados

 e desta arte de ser[te] tanto e nada ser

 

fala-nos, sublime,

o tempo esconso da memória

o aconchego doce e morno do favo

 

o alcance

o chamamento

 

a vida secreta e o labor inato, instinto fértil e hábil,

 

    (a vida sob o chão profundo onde assenta a cruz de ouro

       o padrão, o nervo férreo da vontade)

 

das formigas

 das abelhas

 

ou ainda

 

o pássaro cristado que pousa d'asas coladas

e se solta livre e voa do augúrio fatalista

lamacento

dos trilhos imprecisos da  noite derribada

no limoeiro do quintal, seu torreão de menagem,

 

o meu nome de moura

tua rainha

 

e esta chuva (ai, esta chuva, qual granizo em folha de ferro)

de chover[te]

imorredoura e permanente

 

na saliva macia de meus lábios

 

a aurir-me  a fala com te digo, [e]terna, miríades de loucuras, amorosidades,

capitão de mar e terra, de meu corpo e minh'alma,

 

a clamação do inaudito

nos sinos replicados

 

a acolher[te]

 "aquele que chega, e partindo, jamais parte..."

 

a cidade que é minha

e agora tua

 

a saber[te] tão perto

e tão distante

 

na nudez ocular de minhas íris verdes,  meninas,

a corda d'água que nos prende

pestanas d' infinita escala

 

música

d'harpas celestinas - o concílio dos deuses

ecoantes na amurada e na vigia, escotilha

do teu barco, raio de sol, que canto em laboriosas linhas, jubilante,

 

e deste mar fecundo, burel de seiva_semente_seda,  

senhor,  [te]sendo, a ti me confirmo, 

                

             sómente,

                  ...  tecelã d' a.mar-te.

Inédito, Nov. 2011

Foto da autora

 

 ______

 

Goiva (in priberam)

1. Espécie de formão acanelado.
2.  [Portugal: Estremadura]  Passo estreito e profundo de corrente de água.
3. [Antigo]  Agulha com que o artilheiro desimpedia o ouvido da peça.


Autor: Mel de Carvalho às 09:12
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
Se veladas as brancas velas

 

 

 

 

 

 

Se veladas as brancas velas se não desfraldam
no moinho altaneiro do pavor,
quando, das tuas mãos os gestos não [me] são brandos,
mas alvas as farinhas do amor,

se encobertas, no céu burilado a chumbo e prata,
estrelas recatas se cintilam andaluzes
no lusco-fusco,
ao esplendor das tuas íris meninas,
e se, destemerário, pirata da minha alma,
do meu corpo, do meu sonho,
te ocultas em cultos prosaicos
na senda insondável de desabrigados portos,

e se, dominando o mar, colocas nele estacas
que te impedem de navegar …

Oh meu amado, que misterioso pecado foi o teu
a quem não é permitido vislumbrar sequer a
bambolina nos palcos do céu?

 

 

____

in, No Princípio era o Sol, Edium Editores, 2008,  da autora

(pág.90)

Imagem da net, desconheço autor.

 



Autor: Mel de Carvalho às 13:25
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
Esculpir d'afectos

 

 

Das lezírias os trevos declinados ao sopé das colinas
e dali, das estrebarias, o cheiro das aveias e dos fenos 
a esculpir d'afectos as narinas abertas dos animais.

Afago ao de leve cerdas ao tempo,
entrelaço, na brandura da noite, uma a uma, 
pérolas, fitas coloridas, em crinas hirtas de poemas
e deixo que minha cabeça tombe 
que livre entorpeça e sonhe se carrego todas as dores 
das negras mulheres d’Atenas.

Abraço-te p’lo pescoço, 
coloco o pé descalço em estribo. Ágil, salto.
Aninho-me então longitudinalmente em teu dorso.
Segredo-te felina ao teu ouvido:
- Sabes … Gosto! Gosto quando me prendes, 
quando me dobras pela cintura 
e examinas o que se mostra, o que se esconde,
no vórtice sedoso do decote …
[...]

E de novo e novamente m’enlaças 
e me danças lépido e franco 
e me profanas 
e me endeusas na sensualidade latina de um Tango 
o fogo alado do meu corpo…

Neste rio inexpugnável de lembranças
de que me (re)invento e jejuando, m’alimento,
viajo mística em várzeas supremas d’alecrim e d’hortelã, 
saio e entro,
mil vezes, 
vezes sem fim, em celibato de alma, 
em nomadismo cigano, por dentro do rio salgado de mim
sem hoje
sem amanhã
…assim.

E sou ausência
e sou presença aconchegada nos meus braços;
E sou Infanta 
se danço a valsa debutante na ternura, na tremura dos teus passos…

 

Republicação, poema de 2008,  Luso-poemas.net



Autor: Mel de Carvalho às 19:00
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Sábado, 22 de Outubro de 2011
astrolábios

 

 

dos astros e dos (teus) lábios

 

tão carente

se faz a minha estrada

 

 

 

como se fosse possível


dobrar a própria aragem.

 

 

 

 

 

Inédito

 

 

_______________________________________________________________________



Autor: Mel de Carvalho às 00:01
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Sábado, 8 de Outubro de 2011
o teu corpo

 

de todas as palavras

moribundas

algumas  permanecem 

nos meu lábios de água

em lume

 líquidas    lácticas    canais abertos    vasos [de guerra] comunicantes

lava d'arte rupestre

  - quem sabe? -

 quanto

o sol da praia    o dia claro      ou  a luz de um farol

após

a noite

a  bruma

a ondular-se

 

batel     barco    barca-bela    espuma     labareda.

 

de Diógenes, sei (me),  a narrativa incrédula

do princípio

elementar da fala e do  gesto

 

e desta

a sacudir-me de um espaço improrrogável

a perambular-me

dos passos

dos meus passos perdidos na crista da falésia

donde não atracavam

antes

 nem aves

nem  asas

 

apenas

no peito dos pássaros primitivos

se anunciava a tua vinda

a diagénese química  a biologia diluviana do amor

 

acalentado

 

da oceanografia

de teu corpo   de teus braços

 

sob o manto solto dos meus cabelos

a trança desfeita o nó dos teus dedos

o sorriso, epopeia de teus e de meus  lábios

 

a grafia acesa    a escuta activa

dos lóbulos e das orelhas

das cigarras

a que colo as aspas

a cedilha a vírgula  o ponto

 

o espaço em branco

 

o poema in vitro

 

onde morro a renascer[te]

de metamorfia gradativa … 

                     

a con.sentir-te, apostrofe ou talco candente

de milenar estrela

de cinco pontas

 

jurado (e)terno

em sedimento de mulher...

 

 de todas as palavras moribundas, é-me,  sendo,  vida, eternidade em mim. é quanto basta...

 

 

 

Notas:

1) aludo a Diógenes de Sínope

2)  diagénese - conjunto dos fenómenos que asseguram a transformação de uma rocha mole numa rocha coerente...

 

 

 Poema Inédito

Tela de John William Waterhouse "The Lady Of Shallot, 1888"



Autor: Mel de Carvalho às 12:16
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Domingo, 2 de Outubro de 2011
tudo quanto agasalha a minha pele

 

quando a noite desce

ao lago manso dos meus olhos

e os teus lábios são imagens inventadas

na flor das nossas bocas

 

de sal e chuva

 

uma inquietação pecaminosa de vento

de pupilas dilatas

tece à fala fria da lira um anel de fogo e prata

 

rasga vespertinos horizontes

cordatas entre seitas sem terra

 toma a  cor  de todas as tempestades  do mar alto

 

e  é tudo

e tanto quanto, despindo, [me] agasalha, núbil,  a pele

                                                                                  a alma, 

e rasga o ventre

 

se,  de te amar,  de amor maior,  se fazem musguentos e laicos os meus dedos

e, para que passes, da mesma cor pintei as estrelas

as estradas

as pontes

os pórticos

e os poentes

 

e tomei minhas as dores e as rotas

            dos (teus) desertos ...

 Inédito

Imagem da net



Autor: Mel de Carvalho às 18:51
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
dias de gourmet

Terra de tristes astros

 estes

 meu amor

 

em que desperto da floração dos dedos e das águas

 

ao toque ascético

  - um paraíso inventado -

 

terra de tristes astros

meu amado 

em que adormeço

 num ápice sonolento e  casto

 num pestanejar de verbos e sílabas

 

 e [te] viajo em  quilha sendo asa

comprimida na impulsão dos sentidos

 sob mandíbula de ave edénica

 

soletrada em ti, parca e incompleta,

 

 estátua de sal

em pradaria

 

a somatizar parcelas

riscos paralelos, predispostos ao alto, a giz,  nas pipas

e nos aros dos barris

 

como dólmenes, ou menires

   aprumados

   proscritos

em  searas tardias ao ritmo de uma vazada de cartas

 

Sem sentido 

 

- a solidão perpétua - 

 

dos números primos

 dos elementos e das tabelas logarítmicas

 que não [me] cabem nos olhos

 e resvalam

esquiços de brilho de mulher expulsa do templo

 e que jaz oculta nas searas   nua e já fria

 

e deste rio

 

sobrevivente ao ensaio

 

 ao voo vitalício das águas e das águias

 ao  adornar dos barcos e das jangadas

 ao folhear ravinas impensáveis de um rosário

 feito de nadas

 

Terra de tristes clarões  (tão)  invisíveis

 que me trespassam

  - e são as noites e os dias -,

  o  ventre alado, os dedos esquálidos

 

e que

(me) secam em dissipação de traços a pele de um compêndio

 amuralhado a couro com atilhos de vidro

 sacrário de folhas murchas e rostos pálidos

 

 e me falam de um tempo

índigo

 de um caminho

 

das terras do demo e do encontro 

- principio do mundo novo -

 

que me és

 astro luz e colo

 lugar de ardor e labareda intensa

retalhe d’ água    pacificação de incenso

 

 em que me sento emanando a chama olímpica

 e desfaleço a alma

       exausta

o córtex o cerebelo e  o corpo, alfim,

 

na mineralidade porosa da pedra e do poema

 menir,  alquimia exilir da vida,  e ara ou via  sacra,

 

talvez

 

o cálice mosto da videira

o cálice de cicuta

urdido em fé

 

 o alinhamento exacto  o  sol  dos barcos e o espaço vazio

e cheio (tão cheio)

de ti

   em mim

 

...

 

Sobre nós ressoa o peso das multidões

 em afã esvoaçam  pássaros

     impetuosos   insolentes   bastos

 

ecoam

cânticos gregorianos

 na garganta da serra na mansidão dos balidos e dos pastos

 

elevo os olhos

 mais alto que os braços dos guindastes

 

mais largo que a rota dos indigentes

 onde me sabes

 

 e, no arrebatamento de um verso,

 

eis-me, como me queres, o seio aberto, o ventre nu,

 

e de novo sou ave tíbia, vacilante,

 e  tu o ninho, o barro,  a ilha,  ou o gato em telhado de zinco quente

 (tanto me faz)

 

a que me dou ao som da pele retalhada a laser na penumbra andaluza 

   de um escotilha de pestanas húmidas

 (uma lágrima só)

 

e eu quero da ilha

  o povoamento dos mastros

 

a vastidão dos dias e dos corpos

   sobrepostos

 

a feição incendiada dos ventos nos restolhos e nos campos

   o mundo ávidos das poças de maré

 

e  apenas

 quero de ti o afeiçoamento dos teus olhos

 nos meus lábios

entreabertos

 

 sabes,

 é por ti que alimento os dias e esta arte

de sucumbir

no oxigénio que me falta em  metamorfose de fungos e mariposas

 

(e  de te chorar,

amor, 

       chorando rosas)

 

 e me são largos os gestos das ceifeiras  e dulcíssima a pureza fálica dos menires

 

 o mimetismo (tão nosso) dos silêncios

e me escorrem gritos

na sanguinolência sem espinhos dos afectos

  a que me entrego

 

e os meus lábios

 

ai os meus lábios, amado, são (tão)  leves

nos teus  olhos

 a interrogar o sol das estevas

e o sal das pálpebras

 

e os dias

    de gourmet...

 

Inédito,  Alentejo, Set. 2011

Imagem da net, autor desconhecido



Autor: Mel de Carvalho às 14:35
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
fomos perdendo aos poucos

 

fomos perdendo aos poucos

a inclinação agressiva da onda

 

a luz

nos dias velhos

é um misto

matiz de  Primavera e feixes de Outono

 

num tremulezir de laços

nus

a taça em que bebes a noite pura como água

 

o musgo dos meus olhos

salsos

a dirimir na praia

 

tudo ficou plano

os meus lábios tornaram-se mais amenos

na busca dos teus

   alas d'alvora

 

caminho-te devagar

 

os olhares são [nos] mais distantes

e tão mais próximos

 

qual

espécie de andorinha-do-mar

procedes do tempo

ápode

e dos milénios

antes de inventada a roda

 

prófugos

 

 seremos sempre, ascetas ou perdulários,

a bridar

a cor tangível do fogo que nos consome a fala

 

entre a  espuma e o mergulho

declina-se

o crescente

em linha

avistado da terra 

 

e nós, cristãos e mouros,

sabemo-nos

artífices das margens

cerzidos

à mó

celeiro e trigo

areal e vaga

 de um  mundo novo ...

 

 

 

Poema Inédito

Foto da autora (Vilamoura, Algarve)



Autor: Mel de Carvalho às 11:00
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»DIVULGANDO - Seja solidário: Ajude a ajudar quem ajuda.
"NO PRINCÍPIO ERA O SOL" Edium Editores .
Ao adquirir este livro está a contribuir com 10% do valor de capa para a AIPNE - ASSOCIAÇÃO PARA A INTEGRAÇÃO DE PESSOAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS, Rua António Sérgio, n.º 1 A - Chasa – 2615-040 Alverca do Ribatejo, mail: aaipne@sapo.pt

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© Todos estes textos estão registados na Inspecção Geral de Actividades Culturais (IGAC), Registo de Obras Literárias e Artísticas, Colectânea "Nomadismo d'Alma".
A autora não permite cópias totais ou parciais dos mesmos em blogs ou afins sem a sua autorização expressa.
»Aqui, na noite, navegam:
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Prefere ler prosa? Então venha comigo: . Noite.de.Mel (prosa)


»"Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado."(Goethe) *

»Breve sinopse bio-bibliográfica

Maria Amélia de Carvalho Luís (Mel de Carvalho) nasce em Portugal, Lisboa, a 23 de Janeiro de 1961.
Licenciada em Sociologia do Trabalho pela Universidade Técnica de Lisboa, em 2007 inicia Doutoramento na Universidade Nova de Lisboa em Ciências da Educação.
A par da actividade profissional na área social e educativa, publica pela primeira vez os seus trabalhos (da poesia aos contos…) na Internet em 2006.
Em 2007 dá à estampa o seu 1º livro, "Sibilam Pedras na Encosta", Corpos Editora.
Em 2008 lança o seu 2º livro, "No Princípio era o Sol", Edium Editores
Do seu curriculum literário fazem parte várias participações em Colectâneas/Antologias, nomeadamente:
- Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XVI, "Poiesis", Ed. Minerva, 2008;
- Antologia Escritores Brasileiros - e Autores de países em Língua Portuguesa , 8ª Edição, 2008;
- Antologia Escritartes, 2008;
- Antologia Luso-Poema, 2008;
- II Antologia de Poetas Lusófonos, 2009;
- Antologia "Quem acrescenta um ponto ....", 2009.
- Colectânea "A arte pela escrita", 2009;
- Colectânea "Contos Cardeais", 2010.
Para além dos seus blogs, colabora com diversos sites de escrita, jornais e revistas
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