Domingo, 13 de Maio de 2012
Não canto nada que não seja ...

 

Não canto nada que não seja
o amor
num poema diferente de cor rosácea e branco
- candura sitiada entre
a voz da terra se que escorre ambiciosa
no veio escuro do tempo
e a garganta onde
o grito
se solta ávido
e revolto
se grito a profética fome
das mulheres que habitam setas na carne do teu peito
e se aninham fêmeas a medo e a custo
sem toque outro que não seja
d’arpas
d’alaúdes
d’liras
no delírio confesso
de serem elas próprias
todos os instrumentos
acordes finos
senão gemidos, de violoncelos,
de violinos.

Não, não canto mais que não seja a dor,
o desencanto
o abandono
e a eterna busca do pigmento da tinta
que imagino exista
na alma espalmada do ser autista
o espaço vazio entre o arco e o alvo
o dardo que espeta o músculo uterino
de um corpo.

Do amor
canto o poema contínuo o plano sem tino
o sangue sangrando
velas pandas por dentro de si:
o esquecimento
o coral distante distinto
no mergulho insano
na apneia em espanto…

Espanto-me e
imagino um poema como uma árvore
um baloiço de ramos
um fruto supremo
suspenso
maturo
macio
suculento
e um chão por baixo,  rectilíneo, plano,
calafetado a seda verde no verde das folhas
e quente, na febre dolente das vagens
na fúria das águas
antes
e, de novo e sempre, sem anúncio prévio as chuvas chegam
em bátegas profundas em quedas maiores
e retalham os riscos
e molham os gritos
onde escrevi
amor.

Não, não canto nada que não seja rastros
de mim e de bichos, de insectos alados, de flores e de rosas
e mariposas,
lacraus famintos e ínfimas formigas
polvilhados em luz
em baba
em lúmen
rastilhos na noite de vaga-lumes
num jogo d’enredos de boca saliva e língua.

                             E cantando ouso viver.

____

 

 

Republicação

Lx, Abril de 2008

Publicado aqui e no Luso-poemas

Imagem da net, desconheço autor.



Autor: Mel de Carvalho às 22:14
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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
a madrugar dos olhos

 

 indiscerníveis

 

alheios ao afluxo de ruídos

ao madrugar dos lábios em lençóis de estopa, 

à consistência da luz

 

 repousam nossas, sob a claridade eterna da lua nova, a celebrar-nos a data, 

poças de orvalho clarividentes 

 onde o futuro foi ontem e,  breve, se demora

 ...

 

  indiscerníveis,  aqui, no lago dos meus olhos fundos e no meu ombro 

todos os momentos partilhados

a curva singular, luminescente, d' etérea forma em trança, 

de um maio em flor-silêncio.

 

inabitadas, predizem-me as linhas da vida

nas minhas mãos em concha

- o espanto,  o pasmo da descoberta, um mar levante, inquieto, 

a sopar sueste, submergindo quilhas, cascos e convés,

marés e navegantes 

          a um só tempo -,

 e, a  fome inocente, das pardelas e gaivotas,

d'amoras silvestres partilhadas.

 

celebrada, eis-me,  agora, no ventre das searas em que me acolho,

na seiva que nos percorre, comummente,  d'infindável arte,

e, neste sussurrar de brida e fola nas marés: fala-nos (bem sabes)

da beleza das árvores improváveis

a florir antes da nascitura da folha,

 

da agremiação

madura do teu corpo em meu corpo, 

 

e da ternura

solta e emancipada 

e do tempo do inverno [a nossa vida], igualizada à forma primeva 

das nascentes dos riachos  recortados nos prados

 verdes, no verde canto-alento

dos meus passos 

imensuráveis 

 

- estas serras, estes caminhos, estas veredas periféricas a bordejar a aldeia clara  -,

 

e nada,  mas nada, além do vento no campanário,

meu amado,

se ilumina, e nos ilumina, maior, varejando a terra, 

 

que a  luz que nos acresce  por dentro,

oculta das pálpebras,  em lume brando,

e cruza 

o espaço o colo e o tempo de um poema 

 

e gera, basta, 

a rosácea setentrional e o rio que me finta, 

qual teu rosto, d'água e sal ...

  e se aquilata

deste lago de minh'alma, mouchão de tejo, 

onde Poesidon se deita  sem dormir,  dulcificado, desperto em quilhas de barro, 

 

 - são barcos, senhor, são barcos, as cinco esquinas, o teu reino de nenúfares,  a tua armada -, 

...

  

 indiscerníveis, 'inda, as sílabas áfonas, quão indizíveis me são os rumores do grito

a ecoar das fontes, jubilado, e o teu nome em frémito 

sustenido 

 

e esta vontade

incontornável 

de dizer-te, em noite de lua nova, ao teu ouvido, 

 

"... amo, amor, amado..."

 

entre

a faringe aberta e o cerro maior, forma injuntiva, dos meus lábios cerrados... 

 

 

Poema Inédito

 Foto: Renato Rabe

 

 



Autor: Mel de Carvalho às 22:29
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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
inominável verbo, liberdade...

 

não [me] darás nome 
nem falarás de mim em vão ao tempo que passa. 

 

há nesta pátria um arauto de míngua
um arnês inseguro
que nos sustêm  da queda abrupta
os punhos de renda 
e esta mágoa acesa
e a revolta 
a reclamar abril 
nos olhos desavindos dos velhos e das crianças

há fome no meu país, sabes?

não [me] darás nome - sou a inominável 

a Liberdade jorrada do teu ventre de silêncios
a sílaba tónica dos povos amordaçados
a palavra
a gnose suprema do teu e meu entendimento 

o dia claro, a madrugada de linho e nardos,

a que aspiravam os poetas 

 
sou 
o mês dos cravos que antecede as rosas

... 

 e chove, sabes? 

 chove a cântaros!!!


não, não [me] darás nome diferente - se sou o mistério do ovo 
a água
o ventre que embala a ordem primitiva
e o mel
alento e sede, bênção e cura, dos teus lábios d' olhos despertos. 


e tu, a força hercúlea e sábia de um maio-brida que enfola a vela 

e ergue bandeiras em mastros

homem-seara nascida que não se vergará jamais

 e nunca!…

Inédito, 25 de Abril de 2012

Foto: Ben Goossens



Autor: Mel de Carvalho às 18:46
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Sábado, 14 de Abril de 2012
além dos olhos

"Há muitas coisas espantosas,

mas nada há de mais espantoso do que o homem."  

Sófocles, Antígona 

 

 

recomeça-se num abraço abandonado, 

alegoria breve 

na distância em que te conservo

 

depois

existem as arestas dos (meus) dedos

e a magnitude dos (teus) lábios

e,   alheios a tudo o mais, 

os brilhos

e os silêncios 

a crescerem íntimos na janela do tempo

 

 transcendental

a tremeluzir 

 

de uma linguagem quase infantil

afásica

monossilábica

  

depois ainda, 

o corpo fechado 

ousa o ensaio das águas 

indizíveis, inomináveis, 

seiva

suor

e lágrimas a salgar a íris própria

 

ternura eximia

e vagarosa  

 

de te olhar

        além dos olhos. 

 

infinitésimo é  o sentido da vida

     após a Páscoa. 

 

 

 

Poema  Inédito

Foto da autora

 

____

Cabe aqui um agradecimento: 

Sem que me tenha dado conta, este blog ultrapassou 150 000 visitas.

De cada uma das vossas leituras vos sou, pois,  imensamente grata.

 A todos, um enorme Obrigada! 



Autor: Mel de Carvalho às 17:51
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Domingo, 25 de Março de 2012
pudesse

 

pudesse o rosto

sob a coroa

iluminar-se

níveo e basto

e as mãos madrugarem-se livres

sinos d'alvoroço e estrela d'alba 

na tela ampla do teu corpo

  e tu, bouquet em flor, em meu regaço, 

 

pudesse

este pretérito imperfeito do verbo [in]conjugado

ser[te] acto

de bem-querer

 

carácter espesso de que me enformo

 

e em que adormeço

na dormência 

da noite

 

e os meus passos

se haveriam de tomar caminhos

na antologia etérea dos teus lábios

        de dizer

da luz formosa que nos fende por dentro, 

e deste abraço

da minha mão, em teu lugar ...

 

...

 

nunca mais amarei Senhor

que me não possa amar!

 

Inédito

Imagem da net 



Autor: Mel de Carvalho às 10:38
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Terça-feira, 20 de Março de 2012
se hoje viesses

 se hoje viesses

sentar-te no parapeito de meus olhos

de água

 

ouvirias 

rios salgados

a desmancharem  a trança longa das pedras 

 

o esoterismo dos símbolos

mercúrio e vénus

no sorriso litúrgico dos cânticos divinos

 

e, da voz dos salmos, madrigais de dermes, 

aluviões de margens a cavar silêncios

 

aos vales mais profundos 

 

se hoje viesses, meu amor,

amanhecer claridades foscas nos meus olhos

semicírculos de musgo trigado à cor solar das pradarias

 

haveriam de, em ciúmes de nós,  

as estrelas de alva1)

poisadas em céu de Inverno 

beber a lua

na avidez de um só trago

madrugada diferida e  expulsa p'la tua espada,

noite fora de portas,

à palidez colarina das giestas

 

se hoje não fosse já ontem

 

e não cantassem agora (que tanto as oiço), uníssonas,  as searas roucas

a ausência  e o afã das ceifeiras 

em ladainhas de sal e trigo

 

e Lisboa não chorasse 

 

no corpo de uma guitarra a morte o xaile e a chinela 

a mouraria o castelo e a severa do fado...

 

 

Republicação, 2011, 14 de Março

Imagem da net

 

1) "Onde estavas tu... quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?" (Jó 38:7).



Autor: Mel de Carvalho às 21:50
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Quinta-feira, 8 de Março de 2012
apenas

 

apenas ser-te  

 

chão 

borboleta

ou asa

 

tudo ao redor são ilhas


[dizem-nas,  as gaivotas da praia norte,  desabrigadas] 


mas apenas os teus olhos

 

liames

veredas  luminiscentes musgo e viço

 

e verde o trilho

 

 o percurso

preciso

e exacto

  

 

onde amanheço

 

a movimentar as vagas

 

 

o verde.  a erva

prerrogativa de ternura e 

brilho

 

em meu olhar.

 

 

Inédito



Autor: Mel de Carvalho às 19:46
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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
pobreza extrema

não aceito. não me digas

do oiro 

 megalómana evidência dos dias súbitos

do meu reino de princesa

apenas areias, silícios  do deserto a retalhar-me a alma

 

sequer

me fales 

das  amplitudes oceânicas

qual searas amadurecidas de trigo 

que não se abarcam 

sustentadas à míngua da terra  

      no espaço dos meus braços 

 

 alvo e ténue 

o casulo de pele, espaço que,  ad æternum, te concedo,

 

diz-me, oh diz-me, para que escute, uma vez que seja,

 meu senhor e rei do reino onde m'habito,

 

do alvor,  do silêncio

alastrado,

húmido e líquido, terras de sangue e mel,  alba aurora de alabastro e d'azeite 

candeia luminária 

acesa 

no porão dos teus  navios,

 

e de ti, fulminação inaudível de todos os impossíveis

 

diz-me de ti  [de ti apenas] 

e do teu ritmo 

fragmentado e sucinto

em nanodécissimos virgos de segundos

na espessura dos meus dedos, de meu peito, 

 

luz, dardo divino,

 

e dos teus poros

desabrochados em espera 

na curvatura dos meus lábios

centelha esquiva  sob meus olhos breves

 [tão breve sabemos o nosso tempo, aqui...]

 

e dos teus olhos, dos teus olhos  

[tão] incrédulos

vacilantes e achados

no detalhe circunscrito da nossa sede de sorrisos...

 

diz-me. diz-me, oh sim, diz-me, 

que

apenas sei, em mutismo, 

            da pobreza extrema de não te saber à proa deste mar infinito ...

 

 

 Inédito

Foto: Haleh Bryan



Autor: Mel de Carvalho às 21:47
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012
"imporium se move"

 quando entardece 

 

os bichos rastejantes da floresta

com que me igualo

regressam em bando, escancarando todas as portas da cidade de Davi.

 

e eu regresso, mendiga esfarrapada, à pedra, 

soleira antiga e fusiforme,  onde deixei teu nome

 

agora tudo se move

em torno dos teus olhos d'água - pássaro, miragem, inquietude ou asa

que inventei 

na quadratura do sonho. agora, entre as tuas mãos (apenas)

há um cubo mágico

a combinação de faces e de arestas

um mecanismo de  Rubik

 

depois o sol, em vigília de verbo,  amanhece a copa das árvores 

os cheiros intensos de resina invadem a floresta donde vim

dizes-me cidreira e mel. e mel-marfim.

e os teus braços 

sons nascentes

rodam

a poente

cinjos ao ventre da terra

 

digo-te, búzio em ouvido, 

do vento e da água

da estrela de cinco pontas que me guia (sempre)

da magnitude da notícia 

da estação das andorinhas

regressadas 

 

dizes-me

em promessa dos dias longos

na dupla articulação dos maxilares

na longarina da fala

 

tutto ritorna alla prima forma, bella donna

imporium se move, tutto se move ...


o pó regressa ao pó, a lava voltará a ser lava.

"questo è l'uomo". io sono l'uomo... 

só a vida vivida é realíssima. mesmo a inventada.

 

quando entardece tu chegas. noviça é[nos] sempre a hora. e a chegada.

 

 

Inédito

Imagem da net

 

 



Autor: Mel de Carvalho às 20:33
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Sábado, 11 de Fevereiro de 2012
trago[te]

 trago-te o de.gelo da noite inóspita 

 a fala pétrea das águas 

pousada nas nervuras do meu corpo

 

o peito oferto

as primeiras folhas 

a transparência nívea 

que encontro entre dois terços de luz 

 

e a herança dos dias largos

na primavera próxima

 

trago-te

meu amor

o registo exangue 

do que vêm os meus olhos 

 

o cieiro dos trigos 

o levantar íngreme  dos abibes e narcejas 

nos restolhos alagados

 

quando amanhecida [te] abro paliçadas e janelas 

 

enigma de dizer[te] a cada hora arrebatada  

do fulgor das aves ternas que se ocultam 

nas pestanas da casa 

 

e do quanto 

me és, sem que suspeites ou saibas, 

a embriaguez de leite seiva estilete crença e verbo,

 

a sede de beber-te 

gota-a-gota, trago ou  gole, de silêncio e de saudade 

 

           vagarosa, deponho a dádiva. 

 

falo-te agora  do advento primevo 

recurso de primeira instância

apelo de bom porto e de ancoragem

 

e de ti, água, 

    que me cais, e que me unges, em sinonímia de texto e forma, 

ostra, enzima, lacrimejante pérola, 

de uma telha nobilíssima do beirado da campina.

 

           trago-te, o canto dos meus olhos o mutismo dos meus lábios e o decante das fragas ...

 

 

Inédito

Foto da autora

 

 



Autor: Mel de Carvalho às 20:55
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Domingo, 29 de Janeiro de 2012
a casa da falésia

 

 

 

... acima de todas as coisas

na invisibilidade corpórea dos mudos gestos

subjaz ao ventre breve da falésia

 

apenas

 

o respiro-alvor da caliça solta das paredes. adentro-me. 

o cheiro lenhoso das mastros da borda-d'água - longitudinal floresta,

folhas orgânicas  em que adormeço a novidão sem pressa

 

moroso

o chão que sou a abrir-se sob o rastilho aceso dos teus passos

acorrentados

morosos

os meus dedos ímpares  (de cada pé, de cada mão)

a dizer-te da fertilização 

dos lírios infinitos das lajes e das rosáceas dos altares 

 

e do piar inquieto das gaivotas deleitadas 

no acordar das tágides residentes 

no rio da minha cidade

 

circunstâncias que nos enformam

afunilando

a erudição do verbo e deste a amolecer o instinto

e as memórias

 

- excessivamente -

 - excessivamente -

 

e, invicto, o alvoroço o despertar das aves

as manhãs despidas das zinias e dos sábados e domingos

 

a leveza dolente do teu cheiro de seiva e mar

 

a transparência láctea da água

a erosão da pedra

a casa subida  - o arrebatamento das asas o rubor dos bicos

o sussurro pálido dos socalcos e dos decotes

das rochas

 

e, invictos,  os teus braços

a rogo de não saber-te

[urgente. urgentemente]

a estreitarem-me, transfigurada tranquilidade,

anteditos, áfonos, desmedidos 

súbditos de um reino de aquém e além mar

línguas lábios e istmos

de acervo e de  silêncio.

e esta dor de ausência na gesticulação dos lábios,

 presbita constatação de amar-te

[vertíce. vórtice. vertiginosamente]

além do verbo. além do espaço. 

 ... acima de todas as coisas, casa da falésia, império dos sentidos.

 

 

Inédito



Autor: Mel de Carvalho às 18:05
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Sábado, 21 de Janeiro de 2012
dos pomares e dos frutos

 

na verdade, era madrugada ainda na mariposa dos lábios

e o mundo virginal do verbo

não tinha irrompido a renda púrpura dos teus pulsos

quando te falei de um músculo

retalhado e oculto

a peito aberto

sob um colar de conchas libertas na luz nocturna 

 

de um terço madrepérola de sangue e e lágrimas

 

e dos pomares profícuos do meu corpo de pedra e chumbo

onde, os frutos biológicos e sadios,

mercê da inquietude dúbia do vento à copa das árvores

se convertiam

de polpa 

em húmus

 

na verdade, ainda, na noite crua das vagas,

solitária é a lua

 

e quão suspeita e súbita é, à face da terra,  a tempestade dos olhos...

ou dos sentidos, bem sabes...

 

Inédito



Autor: Mel de Carvalho às 23:17
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
num corpo de papel

 

 

num corpo de papel

sobram-me

as mãos e os gestos

 de te_ser o risco

macramé

 - geométrica forma. os dedos o ponto e o nó - 

 

a boca e as palavras

(profusas)

de dizer

 

a cegueira  a fome

 

de teus lábios

 

subjaz a carne marcada

orgástica e vitalícia

o punção de teu nome

tesoura

recorte

embriaguez de sonho

 

sonhar-te

 

o fogo. ai o fogo,  maior que água

que  [me] consome

bebendo

ao redor

a última gota 

da distância que me isenta 

(fosso do meu castelo)

e me confirma, sulista  moura,

 

e sou-te, irremediavelmente,

península sitiada, 

mapa

lanterna acesa sob o manto das tuas armas

guia 

gruta marítima

furna

subaquática 

 

improvável local

aquém  e além dos mapas consentâneos 

onde te espero 

 alada 

e onde os deuses 

reunidos em concílio

rodam, tribais, à nossa volta,  e outorgam

no archote clarividente de um sol-papiro

que,  se não ocaso, então

será em nós

 

-  na flor evangélica e carnívora da nossa boca -

 

o equinócio 

 

o instante preciso em que o sol

em aparente órbita

cruza, cerzindo, 

a própria esfera celeste ...

 

num corpo de papel fica ditosa a marca d'água

a escrita hieroglífica e cuneiforme

o rubor do sangue  que nos ilumina por dentro

 

o amor sem mácula

e o devir

(nascente, boreal)

do tempo preservado nas pedras.

 

 

Poema inédito

Imagem da net



Autor: Mel de Carvalho às 20:36
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Domingo, 8 de Janeiro de 2012
gentílica forma

 

surges-me, tecitura timidamente nua

no tempo dos seixos,

a inflectir-se a sul das formas pantanosas

e dos sentidos (ocultos) no âmago da chama,

lanterna de Aladino,

onde o ocidente  tomba e se demora ao vapor das horas

 

revelas-te,

gentílica forma, paladino andante, senhor de um reino,

de madressilvas, de pérolas  e de rosas

sufocadas

- a minha pele, que é tua, teu habitáculo permanente

 cada poro, cada condado, cada alvéolo, sendo

vaso comunicante 

em inclinação de sol

rarefeito  

 

na flor do cardo, na fogueira  primeva e restolhada da planície

 

digo-te, adolescendo,  

da falibilidade dos deuses no Olimpo, 

de um caudal,  de um nó de sete milhas de  bruma e  vida,

a unir-me, musgo,  à pedra basáltica da  tua alma

autêntica filigrana da palavra

 

em  luz que cega

naufraga

sobre todas as coisas, inominável, soletro-te,

íntima, morosa, como me sabes.  por vezes, rápido,

 (confesso)

em pulsação do ventre 

na vastidão da terra enrubescida

na pele dos pulsos

na raiz dos olhos e rente aos lábios

 

... retorno lentamente

 

digo-te então, gentílica forma, de como  se fazem brandos os lírios bravos

dos campos em pousio,

à causa justa das nascentes.

 

de quantas vidas me faltam, rio,  antes que sejas voz  no térreo damasco das minhas margens?

 

 

Inédito



Autor: Mel de Carvalho às 10:17
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
Aleluia

trago-te comigo 

desde a largueza dos tempos

 

e da liberdade das brisas

 

onde os lábios das crianças

e os olhos 

das ceifeiras 

eram cristais certos  a fluir além de  vésperes1 e ocasos

 

e os homens

de boa vontade

 

não sabiam 'inda da força  do acelerador de partículas


trago-te, na humildade desnuda das coisas simples,

 

no canto dos pássaros

no romance dos astros

na lua cheia da minha cara de bolacha maria

no rastro dos bichos no vedo das moitas

(cada ruga que nasce enquanto durmo)

na juntura dos ossos

quebradiços

na marcha lenta dos pinguins, das tartarugas,

 

no vermelho oculto

na filigrana

e no tule, do meu vestido, imaginário, de princesa

no baile e  na trança do meu cabelo

(a tua dádiva)

 

e, bem sabes, bem sabes,  

porque não desisto, jamais e  nunca,

na polpa carnuda dos dedos

com que desenho, determinada,  na areia da praia fria

a esperança vindoura nos dias que ‘inda não vernaram.

 

trago-te em mim, porque não sei, não me permito, nem quero, nem ouso,

                                                                                      equacionar sequer

                                                                                                        viver d'outra maneira.

 

                                                 trago-te assim,  inteira, e levo-te,  Senhor de  Mim, a celebrar-te,

                                                                             Aleluia,

                                                                                        adoração,

                                                                                                       amor, alfim ...

 

 

___
Notas: vésper(es)
...O planeta Vénus quando se avista de tarde, depois do pôr do sol. = ESTRELA DA TARDE;  O ocidente, a tarde.

 

Aleluia:  significa "Louvem! Adorem!" ou "Elogio (em)"- (sejam positivos).

____

EXCELENTE ANO NOVO, meus amigos.  Aleluia!

Bem-hajam pela companhia, pela vossa presença...

 

 



Autor: Mel de Carvalho às 10:06
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
canto do mar grande e d'outras águas.

 

 

 Fumegante

no jardim íntimo dos meus olhos

o Dezembro             a neblina

 

em que cultivo o inaudito

o indizível

e a distância

    inefável, extraordinária,

 

o sal-gema

de que um dia se fez em mim, o mar grande e outras águas,

a forma gerundiva das estrelas pontífices, magas,

 

o símbolo de David

 

e esta falta a que chamo sem saber que nome lhe deva

ou possa dar

de inexistência

e mágoa

plena

a macerar-se poalha em  brilho e canto

na fala, talhe, esquiço livre, dos nossos  lábios

 

e o Natal

 

ai o Natal dos passarinhos sem berço

aqui tão perto

a formigar[nos] o macio das asas

 

o tempo efémero dos presépios

o azevinho, as bagas,

o vermelho dulcíssimo das labaredas

o gemido das pétalas

                         silenciosas

 

o ópio, a papoila pianíssima dos poemas...

 

e, no hino, hossana ária, liturgia de t’amar

.

.

.

 

Acredito, oh sim, acredito, e não duvido,

de que renas virão

no dia do juízo final abraçar-me

fundida a ti

na torrente húmida dos cabelos dos astros

no sortilégio dos pântanos

no encantamento das cidades

compartidas

- a lei gravítica e reaccional

 que, indubitavelmente,

nos repele e nos aproxima

como bandeiras de paz justapostas às  hastes terríficas dos guindastes

no  Livro das Horas,

 

em tudo o mais, sei minhas

tão-só, e apenas,

as paredes da casa grande

a revelarem-se  laudes musguentas

vésperas nas frinchas da iniquidade

e o musgo manso das coisas ímpares

em que te deito, Senhor do meu Presépio,

Luz basilar que me ilumina a estrada

           ad eternum,

 

tua, e virgem de ti, qual  Fénix renascida,

apóstrofe

sílaba áfona

  informe e cálida

sob

uma palidez de pano níveo e cru  …

 

Inédito, Dezembro 2011

 

____________________

 

Santo Natal a todos, meus amigos



Autor: Mel de Carvalho às 09:16
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"NO PRINCÍPIO ERA O SOL" Edium Editores .
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© Todos estes textos estão registados na Inspecção Geral de Actividades Culturais (IGAC), Registo de Obras Literárias e Artísticas, Colectânea "Nomadismo d'Alma".
A autora não permite cópias totais ou parciais dos mesmos em blogs ou afins sem a sua autorização expressa.
»Aqui, na noite, navegam:
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Prefere ler prosa? Então venha comigo: . Noite.de.Mel (prosa)


»"Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado."(Goethe) *

»Breve sinopse bio-bibliográfica

Maria Amélia de Carvalho Luís (Mel de Carvalho) nasce em Portugal, Lisboa, a 23 de Janeiro de 1961.
Licenciada em Sociologia do Trabalho pela Universidade Técnica de Lisboa, em 2007 inicia Doutoramento na Universidade Nova de Lisboa em Ciências da Educação.
A par da actividade profissional na área social e educativa, publica pela primeira vez os seus trabalhos (da poesia aos contos…) na Internet em 2006.
Em 2007 dá à estampa o seu 1º livro, "Sibilam Pedras na Encosta", Corpos Editora.
Em 2008 lança o seu 2º livro, "No Princípio era o Sol", Edium Editores
Do seu curriculum literário fazem parte várias participações em Colectâneas/Antologias, nomeadamente:
- Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XVI, "Poiesis", Ed. Minerva, 2008;
- Antologia Escritores Brasileiros - e Autores de países em Língua Portuguesa , 8ª Edição, 2008;
- Antologia Escritartes, 2008;
- Antologia Luso-Poema, 2008;
- II Antologia de Poetas Lusófonos, 2009;
- Antologia "Quem acrescenta um ponto ....", 2009.
- Colectânea "A arte pela escrita", 2009;
- Colectânea "Contos Cardeais", 2010.
Para além dos seus blogs, colabora com diversos sites de escrita, jornais e revistas
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