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Prefere ler prosa? Então venha comigo: . Noite.de.Mel (prosa)


Sábado, 10 de Fevereiro de 2007
Ode à mudança ...

(foto de Mel)

****

Cansei-me de estar cansada de mim. De vogar em túneis permanentemente vazios, sem vozes, que não as que me acompanham vindas de dentro.

 

Então decidi lavrar as ondas e semear sementes - musas de palavras, planar sobre gelos, patinar sobre vermelhas águas – crivadas de dores e mágoas.

Tinha na algibeira um bloco. Procurei-o. Queria escrever nele cada andamento, cada compasso de uma melodia sem fim …

Tacteei a medo. Tinha a certeza de o ter ali. Procurei durante tanto e tanto tempo…

Finalmente encontrei. Não passava de uma pedra de gelo e, no fogo destemperado de me encontrar a pele em labareda o havia reduzido a um fragmento fino, um quase nada. Pouco restava. A Fada, que eu fora, havia arrefecido, perdido as asas. Esfumadas … caiam ao longo do corpo e esse, estava quase, quase morto …

Então procurei na greda, na terra por onde palmilhava.  E o que encontrava, eram somente poeiras… vermelhas, incandescentes. Queimavam, como escorrente soldadura, as retinas dos olhos …

De mão descalças, abracei uma a uma, como se fossem elas, as pedras dispostas da calçada. Seguras, arrumadas… Procurava o rasto, o sulco dos teus passos. Não estavam lá…

Cansada de estar cansada, decidi que cantaria os Astros, os Planetas, as bocas abertas das gaivotas. Decidi que cantaria as aves do paraíso. Que faria do gelo bilioso um permanente gozo dos corpos retidos no recobro de repetidos abraços.

Em metáforas de poemas. Assim seria… Cantaria a Alegria.

Semeei sobre o anil das ondas a loucura impúbere de milhões de palavras.

Decidi que, e por homenagem a mim, seria palhaço, seria jogral, arlequim … cantaria uma a uma, as escamas de todos os vertebrados peixes.

Que me amamentaria dos seios de todas as orcas do Planeta.

Que seria filha da Terra e do Mar. Que exaltaria um a um, os Deuses do Panteão. Geia, Neptuno, Plutão ...

Que deixaria pegadas impressas nas abóbadas celestiais, intimas, cantos de cio e pranto.

Que ergueria triunfante a taça cálice de carne e sangue. Nas vogais abertas dos meus versos.

E que o meu riso soaria para além do rio silenciado do meu pranto.

E que os meus olhos reflectiriam os lagos de todas as cidades – aquelas que interiores, não se projectam nos espelhos dos Mares.

Hoje, desencontrada da Fada que por aqui viajava, não sei mais quem sou, mas sinto que a alegria de viver, ainda que seja dentro de um umbral de palavras, voltou.

Que os meus passos me conduzem para além das margens de um rio que, subterrâneo, habita em mim e que, em cascatas, tal corças, salta e brota.

Que fareja os sons da madrugada e que se matiza em favos de Mel, na obra de mil abelhas… obreiras de um tesouro – este reduto – onde aguilhoei as dores de estar ausente de ti. As prendi a grossos troncos, os rolei em rios rápidos e eles, floresceram, por fim …

Na certeza de que, não sendo Fada, me aceito finalmente a mim! Poeta, louca, que seja ... mas seja, SIM!

 


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Autor: Mel de Carvalho às 00:31
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8 comentários:
De cleo a 13 de Fevereiro de 2007 às 20:19
Minha querida amiga Mel...

Podes não ser fada...
Nem louca...
Mas és poeta... sempre!

Os teus textos são belos e tu sabe-lo melhor do que ninguém!Falam de ti... do que és... do que sentes... do que desejas...
Sendo fada ou não... és tu SIM!!

Beijinho soprado


De Tiago a 13 de Fevereiro de 2007 às 18:55
Mudança?
Adaptação,
Um fugir à extinção,
Lavrar em fogo as brasas
Adormecidas.
Mudança?
Girar, voltar, compreender
O ser, sermos nós,
Uma espécie, sós.
Mutação, mudar ou aperfeiçoar
O homem, que existe
E se espelha em vós.
Mudança?
Ou apenas ajustar.


bjs
Tiago


De su a 11 de Fevereiro de 2007 às 19:38
A mudança tal como a vontade e a força estão dentro de ti. Somos nós tanto as mãos como o barro, os artistas como a obra criada...os admiradores tanto como os admirados...nasça assim a tua alma ou renasça como ela é através das palavras que nós recebemos...eu ainda as leio como sendo as da Fada Lia...os outros que as leiam como bem entenderem...é o dom da subjectividade...olha, a música nova da Teia desta vez é dedicada a ti. ;)

Beijos grandes, minha amiga.


De Tino a 11 de Fevereiro de 2007 às 17:40
Aínda há muita luz em ti Melzinha, não só no que escreves mas também em quem és...mas aínda bem que escreves porque da maneira que o fazes, és apenas tu!

Beijos docinhos meus e da bailarina! :)


De Daniel Aladiah a 11 de Fevereiro de 2007 às 13:22
Querida Mel
É prosa poética... gosto muito.
Um beijo
Daniel


De Miriam a 10 de Fevereiro de 2007 às 21:44
Mel!
Um tesouro está dentro de ti. E ele se expande para o exterior, quando tomas consciência de que, acima de tudo, devemos nos amar. Amar-nos com a intensidade do olhar das águias, que planam sobre a superfície da terra e vêem os detalhes mais insignificantes... mas que , para elas, significa alimento, significa vida.
Teus "detalhes", querida, é o imenso amor que tens e podes dedicar a outras pessoas... seja fraterno, apaixonado, filial, materno... mas esta opção de dedicares amor e optares pela doação total de ti ao outro, exatamente porque te amas e queres viver a alegria, esquecendo as dores... esta opção é que te trará toda a felicidade do mundo...
Quando nos amamos, o ato de amar ao outro é automático... e nesta dedicação, está o verdadeiro sentido da vida.
Vivendo este sentido, querida. serás feliz, sempre, independente de amores que se vão ou amores que inicíam.
Deus te abençoe, sempre.
Da amiga que te quer muuuuuuuuuuuito bem.
Miriam


De Luís Costa a 10 de Fevereiro de 2007 às 21:13
A mudança, a constante transformação, é própria do homem. Por isso a angústia existencial que tantos nos tortura: quem somos ou quando o somos? O que fomos ontem são restos de um espelho partido, o que amanhã seremos só os astros o sabem.
Mas o poeta, esse grande vidente, consegue encerrar nas suas palavras aquele momento que nem é passado nem é presente: o momento-luz.
E isto é uma verdadeira dádiva dos deuses. Por isso, poeta, canta bem alto: " Poeta, louca, que seja ... mas seja, SIM!"


De Maria Papoila a 10 de Fevereiro de 2007 às 17:14
Lindo texto Mel. Esta Ode à Mudança está bela. Seja asSIM Mel... porque é na verdade iluminada Fada. Beijo


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»"Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado."(Goethe) *

»Breve sinopse bio-bibliográfica

Maria Amélia de Carvalho Luís (Mel de Carvalho) nasce em Portugal, Lisboa, a 23 de Janeiro de 1961.
Licenciada em Sociologia do Trabalho pela Universidade Técnica de Lisboa em 2007 inicia Doutoramento na Universidade Nova de Lisboa em Ciências da Educação.
A par da actividade profissional na área social e educativa, publica pela primeira vez os seus trabalhos (da poesia aos contos…) na Internet em 2006.
Em 2007 dá à estampa o seu 1º livro, "Sibilam Pedras na Encosta", Corpos Editora. Em 2008 lança o seu 2º livro, "No Princípio era o Sol", Edium Editores
Do seu curriculum literário fazem parte várias participações em Colectâneas/Antologias, nomeadamente:
- Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XVI, "Poiesis", Ed. Minerva, 2008;
- Antologia Escritores Brasileiros - e Autores de países em Língua Portuguesa , 8ª Edição, 2008;
- Antologia Escritartes, 2008;
- Antologia Luso-Poema, 2008;
- II Antologia de Poetas Lusófonos, 2009.
- Antologia "Quem acrescenta um ponto ....", 2009
Para além dos seus blogs, colabora com diversos sites de escrita, jornais e revistas
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